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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

EU SEI, MAS NÃO DEVIA


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

11 comentários:

Wanderley Elian Lima disse...

A gente se acostuma até com a roubalheira dos políticos brasileiro. Mas não devia.
Bjux

Meire disse...

Amiga querida, eu me recuso a me acostumar com falta de gentileza, com falta de humanidade. Mas muita gente se acostuma a olhar só para dentro e esquece que a vida tem que ser um equilíbrio entre olhar-se e olhar o outro.

Mais um texto que nos acrescenta de montão nessa Arca de Luz que eu tanto gosto. Minha linda, espero que esteja bem, saiba que te adoro de monte, seu nome está escrito no meu coração ;)

bjokitas com mega carinho meu!

MOMENTOBRASILCOM.COM disse...

MARIA JOSÉ:

O texto é uma verdade incondicional. è uma síntesse da vida moderna; do corre-corre para tentar sobreviver com salarios achatados por culpa dos governos; somando-se ao sempre querer SER e TER, nao importando-se com os problemas alheios, mas trazendo para sí dia a dia mais problemas pessoais ou familiares a resolver. O progresso é muito bom, mas, aniquila com o ser humano, amor. Bjs. Roy Lacerda.

Gilmara Wolkartt disse...

Ei querida!
Adorei a postagem. Ótima!
Que seu resto de semana seja bem feliz!
Gd beijo

Catia Bosso disse...

Adoro este texto...

Olá dona Arca!!!

bjs em seu lindo coração!!!

Senhor da Vida disse...

Uma boa dura! Valew!

cidinha disse...

OLá, amiga Maria. Grandes verdades neste texto. Acostumamos e aceitamos tudo, pois somos muitas vezes escravos do sistema e de nós mesmos. Precisamos mudar, tentando viver melhor com equilíbrio, com sabedoria! Bjos com carinho.

ONG ALERTA disse...

Verdadeiro a gente vive em uma rotina, as vezes quebramos as regras mas o rotina volta, beijo Lisette.

ValériaC disse...

Ótimo texto minha querida...infelizmente, o ser humano é um ser que se acostuma com tudo, desde o melhor ao pior e com isso acaba por se acomodar e com certeza só tem a perder com este comportamento.
Beijos...boa tarde...
Valéria

ELIANA-Coisas Boas da Vida disse...

lindo texto nunca quero me perder de mim deve ser muito triste!
beijo

Simplecidade de Maria disse...

Esse texto realmente diz tudo...eu que diga acabei de perder meu filho que foi vitima de bandidos e nada foi feito pela autoridades,o que tenho que fazer me acostumar porque foi mais um que foi vitima da crueldade do ser humano,mais eu tenho o conforto de deus pois sei, so nele sei que posso confiar,meu fraterno abraço.