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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

ARQUIVO SECRETO


No estado em que me achava, meio acordado, meio dormindo, me vi dentro de uma sala. Não existia nada de interessante nela, exceto uma parede cheia de gavetas para cartões. Aqueles cartões que existem em bibliotecas públicas, de arquivo de livros, etc.
Mas estes arquivos, além de irem do chão ao teto, pareciam não ter fim e tinham também títulos bem diferentes. Quando me aproximei destes arquivos, o primeiro título a me chamar atenção foi “Garotas de quem eu gostei”.
Abri-o e comecei a ver os cartões um por um, para logo fechar a gaveta, surpreso em reconhecer os nomes ali escritos. De repente, sem ninguém precisar me dizer, descobri onde estava. Esta sala sem vida, era, na realidade, o catálogo da minha vida.
Aqui estava tudo organizado por ações, todos os meus momentos, grandes e pequenos, em detalhes que minha mente não podia acompanhar. Um senso de curiosidade e espanto, misturado com horror surgia dentro de mim ao abrir cada gaveta para descobrir seu conteúdo.
Algumas me traziam belas alegrias e contentamento, saudade e memórias. Outras me traziam vergonha, tão grande que olhei por detrás de mim para ver se havia alguém me espiando. O arquivo intitulado “Amigos” estava ao lado do arquivo “Amigos que traí”.
Os títulos iam do mero mundano à extrema loucura: “Livros que li”; “Mentiras que contei”; “Conselhos que dei”; “Piadas das quais ri”.
Alguns eram hilariantes devido à sua exatidão: “Coisas que gritei aos meus irmãos”.
Em outros não havia a menor graça: “Coisas que fiz quando estava com raiva”; Palavras que proferi contra meus pais por trás deles”. Eu não parava de me surpreender com cada conteúdo que se apresentava. Alguns arquivos tinham normalmente mais cartões do que eu esperava.
E outras vezes, menos do que eu sonhava. Eu estava estupefato com o volume de coisas que fiz durante minha curta vida. Como eu pude ter tido o tempo necessário para escrever esses milhões e milhões de cartões, cada um em sua exatidão?
Mas cada cartão confirmava uma verdade. Cada um deles eu havia escrito com meu próprio punho e constava a minha assinatura em todos. Quando puxei o arquivo Músicas que escutei”, vi que o arquivo crescia para conter todo o seu conteúdo.
Depois de puxar uns 4 ou 5 metros resolvi fechá-lo envergonhado. Não somente pela qualidade depravada das músicas, mas também pelo vasto tempo perdido que todo aquele arquivo representava.
Cheguei então num arquivo intitulado “Pensamentos sensuais”. Senti um calafrio percorrer todo o meu corpo. Abri a gaveta somente um pouquinho, pois não estava a fim de testar o tamanho, e tirei um dos cartões. Fiquei todo arrepiado com o conteúdo.
Senti-me mal em saber que este momento havia sido gravado. Uma raiva animal tomou posse de mim. Um pensamento tomou conta de mim: “Ninguém deve saber da existência desses cartões! Ninguém deve entrar nesta sala! Tenho que destruir tudo!”
Em frenéticos e loucos movimentos puxei uma das gavetas, estendendo metros e metros de conteúdo infinito. O tamanho do arquivo não importava. Nem o tempo que eu levaria
para destruí-lo.
Quando a gaveta saiu, joguei-a no chão, de cabeça para baixo, e descobri que todos os cartões estavam grudados! Fiquei desesperado e peguei um bolo de cartões para rasgá-los. Não consegui. Peguei um. Era duro como aço quando tentei rasgá-lo.
Derrotado e cansado, retornei a gaveta de volta ao seu lugar e encostando minha cabeça contra a parede, deixei um triste suspiro sair de mim. Foi então que eu vi: um arquivo novo, como se nunca tivesse sido usado. A argolinha pra puxar brilhando de limpa debaixo do título “Pessoas com quem falei de Cristo.”
Puxei o arquivo menos de 5 centímetros de comprimento. Eu podia conter os cartõezinhos em minha mão. Aí, então, as lágrimas vieram. Comecei a chorar. Soluços tão profundos que machucavam meu estômago e me faziam tremer todo. Caí de joelhos e chorei mais e mais. Chorei de vergonha, de pura vergonha.
A infinita parede de arquivos, já embaçada pelas minhas lágrimas olhava de volta para mim, imóvel, insensível. Pensei: “Ninguém pode entrar aqui.” “Tenho que trancar esta sala e destruir ou esconder a chave.”
Quando enxugava as lágrimas eu o vi. Não! Ele não! Não aqui!
Todo mundo, menos Jesus! Olhei-O, sem poder fazer nada, enquanto ele aproximou-se das gavetas e começou a abri-las, uma por uma, lendo os seus conteúdos.
Eu não podia ver a Sua reação. Nos momentos em que tomava coragem suficiente para olhar em Seu rosto, eu via uma tristeza bem mais profunda do que a minha. E parece que Ele ia exatamente nos piores títulos. E Ele tinha que ler cartão por cartão?
Finalmente, Ele virou-se e ficou me olhando, desde o outro lado da sala onde estava. Olhou-me com dó em Seus olhos. Não havia nenhuma raiva. Abaixei a cabeça e comecei a chorar, cobrindo minha face com as mãos. Ele andou até mim, abraçou-me, mas não me disse nada.
Ah! Ele poderia ter dito tantas coisas! Mas não abriu a boca. Simplesmente chorou comigo. Depois, levantou-se e dirigiu-se para a primeira fila de arquivos. Abriu a primeira gaveta, numa altura que eu não alcançava, tirou o primeiro cartão e assinou o Seu nome.
E assim começou a fazer com todos os cartões. Quando percebi o que Ele estava fazendo gritei “Não!” bem alto, correndo em Sua direção. Tudo o que eu podia dizer era: “Não!” “Não!”. Seu nome não deveria estar nestes cartões. Mas ali estava, escrito num vermelho tão rico, tão escuro e tão vívido. O nome de Jesus cobriu o meu. Estava escrito com Seu próprio sangue.
Ele olhou para mim um tanto triste e continuou a assinar. Nunca entenderei como Ele assinou todos os cartões tão depressa, pois quando me dei conta, Ele já estava ao meu lado.
Colocou a mão no meu ombro e disse: Está consumado.
Levantei-me e Ele levou-me para fora daquela sala. Não existia fechadura na porta, e ainda existem muitos cartões a serem escritos.
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. (João 3.16-17)
Enviado por Roy Lacerda do blog http://momentobrasilcom.blogspot.com/.

16 comentários:

Juliana Dias disse...

Bravo! Ótimo texto. Queria eu estar nessa tal sala. Seria ótimo rever fazer lindas da minha vida, porém as ruins eu dispensaria, rsrs...

Seu blog é muito bom de ler!

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Uma lindíssima crônica, bem ao estilo do que tanto gosto. A vida é assim mesmo; de cartão em cartão se vai à perfeição. Se tempo pra isso não der, nem houver, é porque a medida dela, da perfeição, era aquela mesma. Ele Sabe o momento... ainda bem.
abs

Elayne disse...

Querida amiga,
Obrigada pelo carinho e pela força. Tenha um final de semana iluminado.
Beijos

Pelos caminhos da vida. disse...

"Há corações que param no passado;
e para que isto não
aconteça com você deixo-lhe este
pequeno lembrete, para que o
seu coração, ao mover-se no futuro,
encontre sempre algo no
presente."

Bom fim de semana.

beijooo.

Carmem L Vilanova disse...

Querida Maria Jose,

Minha viagem foi, na realidade uma mudança... uma vez mais estamos de volta a nossa casa no Peru e vamos REcomeçcar uma vez mais e sempre... sempre que necessitemos dar um passo para trás para dar dois para frente... :o)

Estou passando para deixar meu carinho... Hoje realmente não posso ler tudo o que tenho pendente, mas pouco a pouco vou atualizando a leitura...

Deixo também meus eternos beijos, flores e muitos sorrisos e a certeza de que... VOLTEI !!! :o)

angela disse...

Bonito texto!
beijos

Sonia Schmorantz disse...

Uma crônica maravilhosa!
beijo, ótimo fim de semana

*Teresa Cristina* disse...

Lindo!!!!!!!!
é verdade amiga tds nós temos os nossos arquivos secretos, alguns com as gavetas que nós fazemos questão de não abrir...outros estão emperrados e por aí vai.
Texto de profunda reflexão que nos faz parar pra pensar não só em nossas ações mas principalmente nas omissões.
Fica na Paz
Bjss♥

Adolfo Payés disse...

Siempre leerte es un detalle maravilloso..


Un abrazo
Saludos fraternos..

Que tengas un feliz fin de semana..

REGINA GOULART SANTOS disse...

Maria José, fiquei bastante impressionada com esta belíssima crônica enviada pelo nosso amigo Jornalista Roy Lacerda. Veio a calhar e em boa hora.
Cada um de nós possui registrados cartões que revelam toda a nossa trajetória por esta vida.
E sabendo disso, malgrado a infinita bondade de Jesus, sempre há tempo para mudar, no sentido de que as futuras ações possam doravante serem melhor encaixadas em novos arquivos.
Somos enquanto seres humanos falíveis, sujeitos a erros, e sabendo sermos detentores do livre-arbítrio, caberá a nós refletir e perguntar a nossa consciência, quanto ao melhor caminho a ser percorrido.

Um ótimo final de semana

Muitos beijos de luz

Simone Anjos disse...

Querida Maria José,

Esse texto tocou profundamente em mim. Hoje ao acordar comecei a fazer uma análise de minha vida e da vida de modo geral. Comecei pensando em que Alguém do Universo deve jogar dardos com nós mortais. Pensei em pessoas boas que se doam, ajudam, dedicam-se ao próximo e morrem drasticamente (enumeraria várias aqui). Tenho consciência da missão de cada um e aquilo que foi acordado antes dessas pessoas virem para essa escola chamada terra. Contudo, há momentos que a fraqueza me abate, até a fé balança, os questionamentos internos começam. Particularmente, acordei questionando-me sobre o sentido da minha vida, e se algumas coisas não muito boas me ocorrem, fico a procurar na memória (os cartões) que indiquem onde eu errei, confesso que na maioria das vezes encontro os arquivos. Todavia, as boas ações também estão lá, mas parece que não contam muito para esse plano. Daí, me pergunto se é interessante ser bom, correto, bom pai/mãe, amigo(a), irmão, ou um ser humano procurando ter mais acertos e menos erros, já que no final tudo está consumado, o Mestre assume o nosso jugo? Estou reflexiva e esse texto mexeu na ferida.
Continue sempre a nos brindar com postagens iguais a essa, que nos faz refletir e o aprendizado está lá dentro de cada um de nós, é só prestarmos atenção.
Tenha um excelente fim de semana e beijos na alma,

Ritinha disse...

maria José

Bonito texto.
Nos faz refletir que tipo de arquivos estamos guardando.

Beijinho,
Ritinha

Maysha disse...

Que texto maravilhoso amiga.
Agradeço a tua passagem pelo meu cantinho.
Bom fim de semana. beijo de luz

Graça Pereira disse...

Que interessante este arquivo!! Eu também precisava de ter um assim para fazer uma revisão de vida, com os bons e maus momentos, alegrias, amigos... Virei ler o resto para me pautar por ele!
Belo fds
Um beijo
Graça

alegria de viver disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
alegria de viver disse...

Querida amiga
Parece um livro de memorias, tem algumas que queremos esquecer, mas seu registro já foi catalogado.
Com muito carinho BJS.