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sábado, 28 de novembro de 2009

O HOMEM TRISTE


Você passou por mim com simpatia, mas quando viu meus olhos parados, indagou em silêncio o porquê vagueio pelas ruas.
Talvez por isso apressou o passo, e ainda que eu quisesse chamar, a palavra desfaleceu na boca.
É possível que você suponha que eu desisti do trabalho, no entanto, ainda hoje bati de porta em porta em vão.
Muitos disseram que ultrapassei a idade para ganhar o pão, como se a madureza do corpo fosse condenação à inutilidade.
Outros, desconhecendo que vendi minha melhor roupa para aliviar a esposa enferma, me despediram apressados, crendo que fosse eu um vagabundo sem profissão.
Não sei se você notou quando o guarda me arrancou da frente da vitrine, a gritar palavras duras, como se eu fosse um malfeitor vulgar. Contudo, acredite, nem me passou pela mente a idéia de furto.
Apenas admirava os bolos expostos, recordando os filhinhos a me abraçar com fome, quando retorno à casa.
Talvez tenha observado as pessoas que me endereçavam gracejos, imaginando que eu fosse um bêbado, porque eu tremia, apoiado ao poste.
Afastaram-se todos com manifesto desprezo, mas não tive coragem de explicar que não tomo qualquer alimentação há três dias.
A você, todavia, que me olhou sem medo, ouso rogar apoio e cooperação. Agradeço a dádiva que me ofereça em nome do Cristo que dizemos amar, e peço para que me restitua a esperança, a fim de que eu possa honrar com alegria o dom de viver.
Para isso, basta que se aproxime de mim sem asco, para que eu saiba apesar de todo meu infortúnio, que ainda sou seu irmão.
Essa é a mensagem de um homem triste, quiçá como tantos que vemos perambulando pelas ruas.
É bem verdade que alguns são de fato pessoas que se comprazem na ociosidade.
Todavia, há os desafortunados que apesar de trabalhar a vida toda, não puderam juntar moedas para o sustento próprio e da família, e que chegada a madureza, são condenados pela sociedade a viver como réprobos, embora sejam pessoas dignas.
É comum observarmos homens e mulheres puxando um carrinho de papéis e outros objetos recicláveis, para prover o próprio sustento.
São nossos irmãos de caminhada evolutiva, que não têm coragem de viver na mendicância, por isso trabalham com dignidade.
Muitos de nós, no entanto, nos enfadamos com essas criaturas que atrapalham o trânsito com seus carrinhos indesejáveis.
O que não nos damos conta é que além do peso do carrinho, têm ainda que carregar sobre os ombros, o peso da humilhação e do desprezo impostos por uma sociedade indiferente.
É verdade que todos nós estamos colhendo o que plantamos, e que aqueles que passam por essas situações precisam dessas experiências para crescerem espiritualmente.
Entretanto, são nossos irmãos, filhos do mesmo Pai Criador, e merecedores, sem dúvida – no mínimo – do nosso respeito.
Se não os podemos ajudar, que não os atrapalhemos, jogando-lhes amargas, nem menosprezando-os, dificultando ainda mais a sua caminhada.

3 comentários:

Jf. Barbosa disse...

Gostaria de expressar minhas lágrimas neste momento, mas não sei como...

LeeK- "aprendiz de sonhador" disse...

parabens, pelo ensejo,parabens pela atitude, parabens e obrigada pela dedicação as palavras, assim fazes com que muitos de nós amoleçam o coração, deixando de enxergar além do proprio nariz...passamos por essa vida, carregamos no coração somente aquilo que nos marca profundadmente....
prazer conhecer seu espaço, e , entre tantos textos, escolher exatamente este, sem fazer idéia do que se tratava, estou um pouco mais feliz agora.

te agradeço.

parabens denovo. bjs

leek

Antonio Carlos disse...

Querida irmã Maria José!
A falta de tempo nos impede muitas vezes de passarmos por aqui com a regularidade que gostaríamos, mas quando conseguimos vale a pena.
Esse maravilhoso texto da Meimei era um dos que utilizávamos para conscientização dos irmãos que desejavam participar dos trabalhos de assistência do grupo "S.O.S. Amor ao próximo", pois entendíamos que ele sintetizava, e ainda cremos, todos os cuidados que devemos ter quando olhamos para o nosso próximo, independente da situação pela qual esteja passando, evitando assim o tão prejudicial pré-julgamento que tantos de nós utilizamos principalmente com os irmãos menos favorecidos que vivem nas ruas.
Que o Senhor molde nossos corações para amarmos esses irmãos e que Ele nos oriente para ajudá-los da maneira que eles necessitam para retomarem dignamente suas vidas.
Sempre juntos em Jesus.
Antonio Carlos