E o lago era de uma beleza sem par. Suas águas aos raios do sol ou ao clarão do luar, brilhavam e, ao toque suave da brisa, se movimentavam com tanta cadência, obrigando aquele que por ali passasse, a parar, extasiado, ante tanta grandiosidade.
Mas a tempestade se avizinha, um tufão assustador remove tudo por onde passa e das montanhas rolam pedras que, num barulho ensurdecedor, caem ao fundo desse lago. Então ficamos decepcionados com a sua transformação. À penetração violenta de corpos estranhos e ao açoite do vento, aquelas águas cristalinas, brilhantes, convidando-nos a que nelas nos refletíssemos, transformaram-se num amontoado de detritos e lama, vindo à tona o que se ocultava no seu fundo. Dormitavam essas águas tão maravilhosas, sobre um leito de imundícies. Mas a sua superfície era tão bela, tão magnífica...
Que desencanto!...
Assim como esse lago são muitas criaturas; de aparência tão cativante, belas, cultas, serenas, enfim, levando consigo todos os dotes capazes de atrair todos que passarem no seu caminho. Sua fineza, seu requinte convidam a que delas nos acerquemos para desfrutar de sua companhia tão agradável...
Mas, algo acontece que as desgostam, uma nuvem mais escura ensombra o seu céu azul. São convidadas pela vida a uma experiência difícil, então aquela mesma desilusão que tivemos com a transformação do lago, teremos diante de sua reação. Aquele verniz de educação, aquela bondade estampada na sua fisionomia, aquela serenidade se diluem e vemos os desmandos dessas almas, ainda tão superficiais.
Mas assim como um lago pode ser dragado e suas águas ficarem limpas e transparentes desde a sua superfície até o seu leito, assim essas almas poderão, se o desejarem, também se deixarem dragar para que sua presença não seja apenas agradável e bela por fora, mas que o seu interior, seja igualmente límpido e capaz de, mesmo atingido pelas tempestades das circunstâncias da vida, permanecerem serenas.
A beleza física, os dotes intelectuais são acessórios agradáveis, mas não indispensáveis. A verdadeira beleza, aquela que não fenece com o tempo e deixa sempre o suave aroma de sua passagem, é a da alma que se libertou das ilusões do mundo, conservando a serenidade das águas tranquilas de um lago, exterior e sobretudo, interiormente.
Enviado por Jorge do blog Nectan Reflexões

