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segunda-feira, 22 de maio de 2017

TEM QUE TER



Esse jeito de ver além dos olhos, de ouvir além dos ouvidos, de sentir a textura do sentimento alheio, tão clara, no próprio coração. 

Essa sensação, às vezes, de ser estrangeiro e não saber falar o idioma local, de ser meio ET, uma espécie de sobrevivente de uma civilização extinta. 

Essa intensidade toda em tempo de ternura minguada. 

Esse amor tão vívido em terra em que a maioria parece se assustar mais com o afeto do que com a indelicadeza. 

Esse cuidado espontâneo com os outros. 

Essa vontade tão pura de que ninguém sofra por nada. 

Esse melindre de ferir por saber, com nitidez, como dói ser ferido. 

Ser sensível nesse mundo requer muita coragem. 

Muita. 

Todo dia.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

NO ANO NOVO



No ano novo, bem mais do que nos outros, quero alimentar o meu coração com mais daquilo que eu sei que ele gosta e é capaz de nutri-lo. Quero escolher com todo amor os ingredientes de cada refeição. Cozinhar mais vezes para ele. Usar os temperos que mais aprecia. Dedicar um tempo maior para preparar a mesa. E, depois de servi-lo, desfrutar a delícia de vê-lo saborear o que preparei. Curtir o conforto de me saber responsável pelo seu contentamento. Aquele gostinho bom do “fui eu que fiz pra você”.
No ano novo, bem mais do que nos outros, quero ter mais gentileza com os meus sentimentos. Com todos eles, sem exceção. Quero ter mais habilidade para ouvir o que têm pra me contar, sem tentar abafar a voz daqueles que podem me trazer desconforto. Quero deixar que se expressem, exatamente com a cara que têm. Que me façam surpresas. Que me apontem as mudanças que já aconteceram e me falem sobre aquelas que pedem para acontecer. Quero que me mostrem as regiões ainda feridas em mim que precisam de olhar, de cura ou de perdão. Não quero sentimento acuado, amordaçado, varrido pra debaixo do tapete. Quero ser a melhor confidente de cada um.
No ano novo, bem mais do que nos outros, quero ter mais cuidado com os sentimentos alheios. Mais compaixão. Mais empatia. Mais tolerância. Suspender o julgamento. Trocar a crítica pelo respeito. Parar de achar que eu faria diferente, que eu diria diferente, quando não é a minha vida que está na berlinda. Quero lembrar mais vezes o quanto nos exige cada superação, cada avanço, cada conquista, cada descoberta das chaves capazes de abrir os cárceres que inventamos para nós. Quero lembrar mais vezes do quanto eu falho, mesmo quando quero acertar. Do quanto eu ainda me atrapalho comigo. Do quanto preciso ser generosa com a minha trajetória a cada novo projeto anunciado pela minha alma. A cada nova tentativa. A cada novo tropeço.
No ano novo, quero me encantar mais vezes. Admirar mais vezes. Compartilhar mais amor. Dançar com a vida com mais leveza, sem medo de pisarmos nos pés uma da outra. Quero fazer o meu coração arrepiar mais frequentemente de ternura diante de cada beleza revista ou inaugurada. Quero sair por aí de mãos dadas com a criança que me habita, sem tanta pressa. Brincar com ela mais amiúde. Fazer arte. Aprender com Deus a desenhar coisas bonitas no mundo. Colorir a minha vida com os tons mais contentes da minha caixa de lápis de cor. Devolver um brilho maior aos olhos, aos dias, aos sonhos, mesmo àqueles muito antigos, que, apesar do tempo, souberam conservar o seu viço. Quero sintonizar a minha frequência com a música da delicadeza. Do entusiasmo. Da fé. Da generosidade. Das trocas afetivas. Das alegrias que começam a florir dentro da gente.
No ano novo, bem mais do que nos outros, quero ter atenção com relação ao que sinto, ao que vejo, ao que propago. Mais cuidado para não me intoxicar com os apelos do medo e do pessimismo, tão divulgados nesses nossos tempos. Usufruir mais a sábia isenção que nos permite continuar a ver o melhor para a nossa vida e para a vida de todos os seres, apesar de. Não me importa se eu olhar na contramão: quero ter a coragem de sustentar a minha crença de que o amor, a paz, a luz, hão de prevalecer na Terra, e, enquanto isso não acontecer, quero dirigir também a minha energia ao propósito de que prevaleçam em mim.
No ano novo, bem mais do que nos outros, eu quero me sentir feliz. Uma felicidade que não está condicionada à realização das coisas que, particularmente, anseio para mim. Para a minha história nesse mundo. Para essa personagem que eu visto. Quero, antes de qualquer outra razão, me sentir feliz por encontrar descanso e contentamento no meu coração. Por tocar com o sentimento a preciosidade da vida. Por saber que existem coisas para eu realizar enquanto estou por aqui. Por acreditar que a maior proposta da ideia humana é a felicidade. Não importa quantas nuvens eu possa ter que dissipar no ano que começa: gente, por natureza, é sol, e eu quero viver esse lume.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

UMA LEMBRANÇA RISONHA



Não sei porquê lembrei somente depois de tanto tempo. O que puxou o fio do novelo do silêncio e fez a memória falar. Não tem importância. Algumas lembranças são presentes valiosos demais para a gente se ocupar em tentar compreender porque de repente vêm à tona. São peças que nos trazem uma nova leitura do desenho do quebra-cabeça. São chaves capazes de abrir portas que dão acesso a varandas onde a gente se sente caminhando descalço, inspirando jardins, flagrando vaga-lumes com olhos de inocência.
Toda vez que a visitava, na hora de eu ir embora ela caminhava comigo um quarteirão inteiro da rua para se despedir. No mínimo. Concluído aquele trecho, muitas vezes resolvia me acompanhar no trajeto do quarteirão seguinte, até eu chegar no ponto do ônibus. Eu sabia que era uma forma de estender ao máximo o nosso encontro. Um delicado acordo tácito cumprido à risca durante todos aqueles anos. De mãos dadas, seguíamos com passos de algodão. E se fosse inverno no meu coração ou no dela, não fazia diferença: sempre eram pés de primavera aqueles que caminhavam lado a lado florindo sóis pelas calçadas. Coisas do amor.
Naquela manhã, pela primeira vez, o hábito foi quebrado. Limitou-se a me levar ao portão. O corpo onde habitava estava cansado demais para caminhar comigo os costumeiros quarteirões floridos. Quem sabe para driblar o desconforto causado pela nova circunstância, inventamos um outro jeito de afastamento: ao nos despedirmos, brincamos de roda. Foi uma dança rápida e imensa. Ainda sou capaz de sentir a música emanada do nosso riso. De experimentar o lume com o qual aquela vida me olhava enquanto a minha dançava com ela.
Não sabíamos, mas aquele foi o nosso último encontro. Dias depois, a minha avó deixou aquela casa humana onde eu me habituei a encontrá-la desde que nasci. Aquele punhado de manhãs de céu azul anoiteceu naquele corpo para despertar em outros jardins. Caminhar de mãos dadas, quem sabe, também com outros amores. Florir sóis por outras calçadas. E por mais previsível que fosse a chegada daquele momento, acostumar-me com esta novidade já antiga é um exercício que talvez eu realize durante toda a minha vida.
Anos mais tarde, ao me dar conta de que na vez mais recente em que a vi nós nos despedimos brincando de roda, o meu coração riu um riso novo, feito de gratidão e reverência à sabedoria que tece grande parte das belezas. Nada poderia ser mais fiel àquele amor tão lúdico que permeou o nosso encontro, embrulhado para presente num papel com cheiro de Deus. Olhando em retrospectiva, percebo que, embora nem sempre tenhamos conseguido, também fazia parte do nosso acordo tácito a vontade de valorizar os momentos compartilhados como se fossem únicos. De saboreá-los como se fossem os últimos. Parece que lembrávamos que, às vezes, realmente são.
Nem sempre a saudade é tão generosa com a gente. Às vezes, ela fica apegada um bocado de tempo a recordações tristes, culpas, mágoas, arrependimentos por coisas que fizemos e por outras que achamos que poderíamos ter feito, mas não soubemos. Nem sempre a gente sabe, é a pura verdade, e a gente precisa se perdoar para seguir em frente. Para nos liberar e liberar o outro, porque a falta de perdão acaba sendo uma cela para dois. E já que o tempo não passa no coração, acho que é possível atualizar a nossa memória o tempo todo. Podemos ser generosos com nós mesmos. Buscar nos nossos arquivos o que existe lá de doçura, de graça, de amorosidade. Saborear as lembranças risonhas que também trazemos conosco. Utilizá-las como pontes que nos ligam a quem amamos quando a vida nos pede para inventar outros jeitos de encontro.

domingo, 1 de novembro de 2015

UM POEMA DE AMOR



Quero escrever um poema que diga o quanto é precioso sentir amor e expressá-lo. Isso que parece lençol cheiroso, trocado ainda agora, quando fala macio com o corpo da gente. Isso que parece o mar quando ele canta a sua música feita com acordes de ondas e silêncio. Isso que parece flor recém-nascida da planta viçosa que a semente sonhou. Isso que parece sol de manhãzinha, quando ele sorri, tranquilo, pra longa noite do mundo.
Quero escrever um poema que diga que eu me descobri mais feliz quando comecei a me amar melhor e a estender esse amor. Quando não estamos nos amando, vivemos com a percepção de que apenas o amor recebido é capaz de nos alimentar. De que teremos somente o que pudermos receber, as mãos sempre estendidas na expectativa ansiosa do recebimento. Mas, quando sentimos o amor circular em nós, descobrimos uma sutileza até então ignorada: dar amor é também recebê-lo.
Quero escrever um poema que diga que crescer é percorrer, passo a passo, esse caminho. Tornar-se cada vez mais alegre por esse puro exercício do querer bem. Por essa vontade tão clara, tão limpa, de que as pessoas sejam felizes e desfrutem da liberdade. Por essa ideia amorosa de que tenham saúde no corpo e não lhes falte saúde na alma. De que se for inevitável sofrer, que passe logo. De que descubram o contentamento que, por natureza, nos habita. De que não saiam dessa vida sem descobrir a força radiante e transformadora do amor.

sábado, 31 de outubro de 2015

TURBILHÃO



Pergunta que não dorme é perigosa. Bagunça a nossa harmonia todinha. Atrapalha o fluxo natural da vida. Obstrui o caminho que nos permite fazer contato com a sabedoria do nosso coração. Pergunta que não dorme rodopia, incansável, na nossa cabeça e nos deixa zonzos, muito zonzos. Ladra de energia, ensurdece os nossos olhos, abafa a nossa música, esconde o nosso sol. Pergunta que não dorme vai pra tudo o que é canto procurar resposta, como se resposta fosse coisa que se encontra em qualquer lugar.
Tentar deixar a pergunta dormir um pouco pode ser a melhor maneira de abrir espaço para a resposta acordar. Talvez, a única. Para que a vida responda, às vezes o mais saudável a ser feito é apenas procurar relaxar. Para afrouxar o sentimento. Para arejar a alma. Para distrair a pergunta.
Resposta não consegue florescer no terreno apertado da confusão.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

TOMARA



Tomara que a neblina das circunstâncias mais doídas não seja capaz de encobrir por muito tempo o nosso sol. Que toda vez que o nosso coração se resfriar à beça, e a respiração se fizer áspera demais, a gente possa descobrir maneiras para cuidar dele com o carinho todo que ele merece. Que lá no fundo mais fundo do mais fundo abismo nos reste sempre uma brecha qualquer para ver também um bocadinho de céu.
Tomara que os nossos enganos mais devastadores não nos roubem o entusiasmo para semear de novo. Que a lembrança dos pés feridos quando, valentes, descalçamos os sentimentos, não nos tire a coragem da confiança. Que sempre que doer muito, os cansaços da gente encontrem um lugar de paz para descansar na varanda mais calma da nossa mente. Que o medo exista, porque ele existe, mas que não tenha tamanho para ceifar o nosso amor.
Tomara que a gente não desista de ser quem é por nada nem ninguém deste mundo. Que a gente reconheça o poder do outro sem esquecer do nosso. Que as mentiras alheias não confundam as nossas verdades, mesmo que as mentiras e as verdades sejam impermanentes. Que friagem nenhuma seja capaz de encabular o nosso calor mais bonito. Que, mesmo quando estivermos doendo, não percamos de vista nem de busca a ideia da alegria.
Tomara que apesar dos apesares todos, dos pesares todos, a gente continue tendo valentia suficiente para não abrir mão da felicidade.
Tomara.