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domingo, 16 de agosto de 2015

REENCARNAÇÕES



Venho desde ontem, desde o passado escuro e esquecido, com as mãos marcadas pelo tempo, com a boca fechada desde épocas remotas...
Venho carregada de dores antigas, guardadas por séculos, arrastando grilhões imensos e indestrutíveis...
Venho da obscuridade, do poço do esquecimento com o silêncio nas costas, com o medo ancestral que tem corroído minha alma desde o princípio dos tempos...
Venho de ser escrava por milênios, escrava de maneiras diferentes: submetida ao desejo de meu raptor na Pérsia; escravizada na Grécia sob o poder romano; convertida em vestal nas terras do Egito; oferecida aos deuses em ritos milenares;  vendida no deserto, ou avaliada como uma mercadoria...
Venho de ser apedrejada por adúltera nas ruas de Jerusalém, por uma turba de hipócritas, pecadores de todas as espécies, que clamavam ao céu por meu castigo...
Tenho sido mutilada em muitos povos, para privar meu corpo de prazeres e convertida em animal de carga, trabalhadora e parideira da espécie...
Têm-me violado sem limites, em todos os cantos do planeta, sem levar em consideração minha idade madura, ou juventude, minha cor ou estatura...
Tive que servir ontem aos senhores, submeter-me aos seus desejos, entregar-me, doar-me, destruir-me, esquecer-me de ser uma entre milhares...
Fui cortesão de um senhor em Castilha, esposa de um marquês e concubina de um comerciante grego, prostituta em Bombaim e nas Filipinas. E esse tratamento foi sempre assim...
De uns e outros sempre fui escrava. De uns e outros sempre dependente. Menor de idade em todos os assuntos, Invisível na História mais antiga e esquecida na História mais recente...
Não tive a luz do alfabeto. Durante muitos séculos reguei com minhas lágrimas a terra que devia cultivar desde a infância...
Tenho percorrido o mundo em milhares de vidas que me têm sido entregues, uma a uma... E tenho conhecido todos os homens do planeta: os grandes, os pequenos, os bravos e os covardes, os vis, os honestos, os bons e os terríveis. Mas quase todos levam a marca do tempo. Uns manejam vidas como patrões e senhores, asfixiam, aprisionam e aniquilam... Outros subjugam almas, comercializam com ideias, assustam ou seduzem, manipulam ou oprimem...
Conheço a todos. Estive perto de uns e outros, servindo cada dia, recolhendo migalhas, humilhando-me a cada passo, cumprindo meu carma...
Tenho percorrido todos os caminhos, arranhado paredes, ensaiado silêncios, tratando de cumprir as ordens de ser como eles querem, mas não tenho conseguido...
Jamais se permitiu que eu escolhesse o rumo de minha vida. Tenho caminhado sempre em disjunção entre ser santa ou prostituta...
Tenho conhecido o ódio e os inquisidores, que, em nome da santa madre igreja condenam meu corpo a seu serviço às infames chamas da fogueira.
Têm-me chamado de múltiplas maneiras: bruxa, louca, adivinha, pervertida, aliada de Satan, escrava da carne, sedutora, ninfomaníaca, culpada de todos os males da Terra...
Mas segui vivendo, arando, colhendo, costurando, construindo, cozinhando, tecendo, curando, protegendo, parindo, criando, amamentando, cuidando e, sobretudo, amando...
Tenho povoado a Terra de senhores e escravos, de ricos e mendigos, de gênios e idiotas. Mas todos tiveram o calor de meu ventre, meu sangue e seu alimento. E levaram com eles um pouco de minha vida...
Consegui sobreviver à conquista brutal e sem piedade de Castilha,  nas terras da América. Mas perdi meus deuses e minha terra, e meu ventre pariu gente mestiça depois que o patrão me tomou à força...
E neste continente mestiço, prossegui minha existência carregada de dores cotidianas, negra e escrava. No meio da fazenda me vi obrigada a receber o patrão quantas vezes ele quisesse, sem poder expressar nenhuma queixa...
Depois fui costureira, camponesa, servente, agricultora, mãe de muitos filhos miseráveis, vendedora ambulante, curandeira, babá, cuidadora de velhos, artesão de mãos prodigiosas, tecelã, bordadeira, operária, professora, secretária, enfermeira...
Sempre servindo a todos, convertida em abelha ou semeadeira, fazendo as tarefas mais ingratas, moldada como uma jarra por mãos alheias...
Um dia já sofri por minhas angústias, um dia cansei de minhas lides, abandonei o deserto e o oceano, desci a montanha, atravessei as selvas e os confins e converti minha voz doce e tranquila em buzina, em grito universal e enlouquecido...
E convoquei a viúva, a casada, a mulher do povo, a solteira, a mãe angustiada, a feia, a recém-nascida, a violada, a triste, a calada, a bonita, a pobre, a afligida, a ignorante, a fiel, a enganada, a prostituída...
Vieram milhões de mulheres juntas a escutar minhas queixas. Falou-se de dores milenares, dos enormes grilhões que os séculos nos fizeram carregar nas costas...
E formamos, com todos os nossos lamentos, um caudaloso rio que começou a percorrer o Universo, afogando a injustiça e o esquecimento...
O mundo ficou paralisado, os homens e mulheres não caminharam. Pararam-se as máquinas, os tornos, os grandes edifícios e as fábricas, ministérios e hotéis, oficinas, hospitais e lojas, lares e cozinhas...
Nós, mulheres, finalmente descobrimos: somos tão poderosas quanto eles, e somos muito mais numerosas sobre a Terra! Mais que o silêncio, mais que o sofrimento? Mais que a infâmia, e mais que a miséria!
Que este canto ressoe nas longínquas terras da Indochina, nas cálidas areias da África, no Alasca e na América Latina, conclamando à igualdade entre os gêneros a construir um mundo solidário – diferente, horizontal, sem poderes – a conjugar a ternura, a paz e a vida, a beber da ciência, sem distinção. A derrotar o ódio e os preconceitos, o poder de uns poucos, as mesquinhas fronteiras, a amassar com as mãos de ambos os sexos o pão da existência...
Este poema obteve o primeiro prêmio no concurso de poesia “Gabriela Mistral” em Quito, Equador, em 1992. A autora nasceu no Equador, é professor e socióloga, ativista na luta pelos direitos e igualdade entre homens e mulheres.

Um comentário:

Santa Cruz disse...

Maria Jose: Belo texto e com uma bela reflexão amei ler.
Beijos
Santa Cruz