Páginas

domingo, 15 de janeiro de 2012

A ÚLTIMA CRÔNICA



A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta.
Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um.
Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico.
Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial.
Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema".
Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos.
A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor.
Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade.
Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los.
O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma.
A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom.
Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo.
A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali.
A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente.
Por que não começa a comer?
Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual.
A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa.
O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera.
A filha aguarda também, atenta como um animalzinho.
Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo.
E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas.
Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas.
Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..."
Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.
A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo.
A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo.
O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração.
Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça. Mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Enviado por Jorge do blog Nectan Reflexões e foi aqui postado, por ser pertinente à proposta do Arca.

10 comentários:

AugustoCrowley disse...

Muito lindo.A vida pode ser extraordinaria em gestos simples mas carregados de ternura!bjs!

TRIBUNA-BRASIL.COM disse...

Maria José,

Parabéns! pelo aniversário do Arca, guria. Grato pelos votos de boas-festas. Dessejo a vc e ao Roy, um ano de pleno sucesso.
QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ:(COELH(0/A).
os comentários agora estão respeitosos como devem ser, TCHÊ!

foi necessário o Roy CHEGAR JUNTO.
KKKKKKK. Abrçs.

J.F.S. disse...

Esta experiência tocou-me profundamente, mais rica que a melhor poesia. Meu respeito para aqueles que são pobres e que conservam dentro deles o mais valioso dos tesouros, a dignidade o amor o carinho aquelas coisas que o exterior não lhes podem roubar.
Amei.

alegria de viver disse...

Querida amiga

Vim ler estas belas mensagens e deixar um beijão.
Uma linda semana.

Meire Oliveira disse...

Minha amiga querida, pura e cheia de ternura foi ler essa cena maravilhosa que o autor nos presenteou. Quem escreve tem que ter olhos pra dentro e que se voltam pra fora tbm a observar cenas que para uns passam batidas e ficam esquecidas na cabeça, pra alguns escritores elas vão morar e abrir um sorriso bem grande dentro do coração!

Sorri junto com o pai no final!


beijocas na sua bochecha Maria linda com muito amor e carinho.

Cidinha disse...

Olá, Maria. Linda crônica. Exemplo de simplicidade de amor, carinho e dignidade. Linda semana amiga! Aproveito também para parabeniza-la pelo aniverssaário da arca. Seu cantinho é maravilhoso amiga e tem todo seu carinho e belos post! Bjos no seu coração.

angela disse...

Linda maneira de comemorar é no coração que está nossa alegria de encontra-la sempre aqui com palavras doces e mensagens de otimismo e amor.
beijos

ValeriaC disse...

Um encanto de crônica minha querida, a simplicidade adornada do mais sublime amor, e na verdade, é isso o que realmente importa na vida.
Ótima semana amiga, beijos...
Valéria

Jorge disse...

Nos pequenos gesto feitos com amor, podemos ver a grandeza do ser humano.

Um beijo, Coração!!!!
E uma excelente semana!!!

Feminina e Vaidosa disse...

Adorei!
obrigada pelas visitinhas!
te mandei o email...
beijosss