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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

VOCÊ DESEJA A PAZ?



"Deseje fervorosamente a paz. A paz que você desejará é aquela paz sagrada que nada pode perturbar e na qual a alma floresce como o faz a flor sagrada nas lagoas calmas."
Deseje fervorosamente a paz. Mas... verdadeiramente ninguém deseja a paz.
Você vive falando de paz e se iludindo dizendo que a deseja, mas ninguém a deseja - porque quando a paz é desejada, ela acontece, e ela não aconteceu para você.
Ninguém deseja a paz. Mesmo que você diga que deseja a paz, você não a deseja, porque uma das leis supremas afirma: se você deseja a paz, ela acontece.
Então, onde está o erro?
Muitas pessoas me procuram.
Um estudante procurou-me - ele estava indo prestar seu exame final de mestrado. Perguntou-me: “Como posso manter-me em paz? Como posso manter-me calmo? Ajude-me. Desejo a paz. Ando tão inquieto, tão tenso.”
Eu lhe perguntei: “Por que você deseja a paz?”
Ele disse: “Desejo conseguir a melhor nota. O exame será em breve. Sempre obtive as melhores notas, mas este será meu último exame e eu desejo obter a melhor nota. Mas se minha mente está tão tensa, como vou consegui-la? Assim, ajude-me a ficar em paz.”
Veja a contradição! E isso está acontecendo com todo o mundo.
Eu disse ao jovem: “Se não houvesse nenhum exame, se você não sentisse nenhum desejo de tirar a melhor nota, se não tivesse nenhuma ambição de ser o melhor da classe, haveria alguma inquietação em seu interior? Sua paz seria perturbada?”.
Ele disse: “Não. Não haveria motivo. Não haveria nenhum problema. Eu estaria em paz. Mas agora, o exame está próximo e desejo obter a melhor nota. Assim, ajude-me a ficar em paz.”
A ambição estava destruindo a sua paz. Ele permanecia preso à sua ambição e ao mesmo tempo desejava a paz.
A paz não pode estar a serviço da ambição; é impossível, contraditório.
A ambição não pode ser pacífica.
A ganância de ser bem-sucedido não pode ser pacífica.
A paz não pode estar a serviço da ambição; é impossível, contraditório. A ambição não pode ser pacífica. A ganância de ser bem-sucedido não pode ser pacífica.
Se você desejar a paz, deseje-a por si mesma. Não faça dela um meio para obter algo mais. Ela não pode tornar-se um meio.
Quando esta sutra diz: "Deseje fervorosamente a paz!"  ele se refere à paz como um fim e não como um meio. Ninguém deseja os meios. Os fins é que são desejados e, por causa dos fins, os meios são desejados. Mas a paz não pode jamais ser um meio.
Na existência, tudo aquilo que é belo, verdadeiro, bom, profundo, não pode ser transformado num meio. É sempre o fim. Mas até mesmo Deus é desejado como um meio. Ninguém deseja Deus por si mesmo; desejamos Deus por algum outro propósito. Então, o desejo é falso.
É isso o que quero dizer quando afirmo que ninguém deseja verdadeiramente a paz, a não ser que a deseje por si mesma. Você pode alcançá-la facilmente se desejá-la como um fim. Deseje-a por si mesma e ela acontece, pois no verdadeiro desejo pela paz a ambição se extingue; no verdadeiro desejo pela paz, a ansiedade desaparece; no verdadeiro desejo pela paz, a angústia desaparece.
Se você continuar a ser ambicioso - desejando o sucesso, desejando ser isto ou aquilo, ser alguém - então a paz não lhe acontecerá. Você continuará inquieto, dominado pela ansiedade, tenso. Continuará angustiado e nada do que fizer poderá lhe ser de alguma ajuda. Assim, esteja ciente disso. Se você quer a paz, deseje-a diretamente, como um fim. Nesse caso, o próprio desejo pela paz transformará você.
Na verdade, a paz é natural. Não se trata de algo que precise ser desejado.
Você, você mesmo, a perturba. Ela já está presente. A paz é natural em você; ela é o seu próprio ser. Você a perturba devido à ambição, à ganância, à raiva, à violência. Ela já está presente, mas você a perturba.
Não a perturbe! Se você a deseja realmente, não a perturbe. E então, você começará a senti-la.
Para se alcançar a paz, é preciso remover tudo aquilo que a está obstruindo.
Descubra por que você não está em paz.
Por quê?
Então, remova a causa.
Se a ambição estiver perturbando a paz, livre-se da ambição e a paz acontecerá.
A paz já está presente; você não precisa aspirá-la.
Torne-se apenas consciente de como você a está perturbando, e não a perturbe; isso é tudo. E ela acontecerá.
É por isso que eu digo que quando a paz é realmente desejada, ela acontece imediatamente.
Não se precisa esperar nem mesmo um único instante.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A PEDRA NO CAMINHO



Conta-se a lenda de um rei que viveu há muitos anos num país para lá dos mares. Era muito sábio e não poupava esforços para inculcar bons hábitos nos seus súditos. Frequentemente, fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis; mas tudo se destinava a ensinar o povo a ser trabalhador e prudente.
— Nada de bom pode vir a uma nação — dizia ele — cujo povo reclama e espera que outros resolvam os seus problemas. Deus concede os seus dons a quem trata dos problemas por conta própria.
Uma noite, enquanto todos dormiam, pôs uma enorme pedra na estrada que passava pelo palácio. Depois, foi esconder-se atrás de uma cerca e esperou para ver o que acontecia.
Primeiro, veio um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes que ele levava para a moagem.
— Onde já se viu tamanho descuido? — disse ele contrariado, enquanto desviava a sua parelha e contornava a pedra. — Por que motivo esses preguiçosos não mandam retirar a pedra da estrada?
E continuou a reclamar sobre a inutilidade dos outros, sem ao menos tocar, ele próprio, na pedra.
Logo depois surgiu a cantar um jovem soldado. A longa pluma do seu quepe ondulava na brisa, e uma espada reluzente pendia-lhe à cintura. Ele pensava na extraordinária coragem que revelaria na guerra.
O soldado não viu a pedra e tropeçou nela estatelando-se no chão poeirento. Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou na espada e enfureceu-se com os preguiçosos que insensatamente haviam deixado uma pedra enorme na estrada. Também ele se afastou então, sem pensar uma única vez que ele próprio poderia retirar a pedra.
Assim correu o dia. Todos os que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa da pedra colocada na estrada, mas ninguém lhe tocava.
Finalmente, ao cair da noite, a filha do moleiro passou por lá. Era muito trabalhadora e estava cansada, pois desde cedo andara ocupada no moinho. Mas disse consigo própria: “Já está quase a escurecer e de noite, alguém pode tropeçar nesta pedra e ferir-se gravemente. Vou tirá-la do caminho.”
E tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça empurrou, e empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar. Para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra.
Ergueu a caixa. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Havia na tampa os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra.”
Ela abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro.
A filha do moleiro foi para casa com o coração cheio de alegria. Quando o fazendeiro e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido, juntaram-se em torno do local onde se encontrava a pedra. Revolveram com os pés o pó da estrada, na esperança de encontrarem um pedaço de ouro, quando o rei apareceu e disse:
— Meus amigos com frequência encontramos obstáculos e fardos no nosso caminho. Podemos, se assim preferirmos, reclamar alto e em bom som enquanto nos desviamos deles, ou podemos retirá-los e descobrir o que eles significam. A decepção é normalmente o preço da preguiça.
Então, o sábio rei montou no seu cavalo e, dando delicadamente as boas-noites, retirou-se.


O Livro das Virtudes

terça-feira, 3 de novembro de 2015

DESAPEGO



Desapegue-se da sua dor para que ela não apodreça e te estrague junto.
Quantas vezes o fim de uma relação gera um sentimento devastador, como se não houvesse mais chão nem referências! Seja o fim de um casamento, a perda de um ente querido, um amigo próximo que vai embora, o fato é que acontece com frequência.

Entendo que seja difícil e o sentimento de vazio, o sofrimento, o luto são inevitáveis na maioria dos casos. No entanto, permanecer no buraco eternamente é uma escolha, uma concessão de quem sofre.

Há pessoas que se agarram ao vazio da perda como se esse vazio pudesse substituir quem foi embora. É quase como um tipo de lealdade às avessas que faz o sofredor se sentir culpado por deixar de sofrer, apegando-se ao objeto do sofrimento como se dependesse disso.

Esse não percebe que sofrimento também nos revela, afinal, escancara aonde estão os medos, as zonas de conforto que precisam ser encaradas.

Encarar-se é uma escolha, iluminar os cantos sombrios da alma com a luz da consciência também é uma escolha que depende unicamente de cada indivíduo.

Se estiver sofrendo, cumpra seu tempo de luto em paz. Só não esqueça que ele tem tempo para terminar e, se você quiser, sairá melhor do que entrou.

Desapegue-se da sua dor para que ela não apodreça e te estrague junto. É preciso caminhar e recuperar a felicidade no caminho, nos presentes e compensações que a vida dá, na coragem de recomeçar, de ser de novo.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

UMA LEMBRANÇA RISONHA



Não sei porquê lembrei somente depois de tanto tempo. O que puxou o fio do novelo do silêncio e fez a memória falar. Não tem importância. Algumas lembranças são presentes valiosos demais para a gente se ocupar em tentar compreender porque de repente vêm à tona. São peças que nos trazem uma nova leitura do desenho do quebra-cabeça. São chaves capazes de abrir portas que dão acesso a varandas onde a gente se sente caminhando descalço, inspirando jardins, flagrando vaga-lumes com olhos de inocência.
Toda vez que a visitava, na hora de eu ir embora ela caminhava comigo um quarteirão inteiro da rua para se despedir. No mínimo. Concluído aquele trecho, muitas vezes resolvia me acompanhar no trajeto do quarteirão seguinte, até eu chegar no ponto do ônibus. Eu sabia que era uma forma de estender ao máximo o nosso encontro. Um delicado acordo tácito cumprido à risca durante todos aqueles anos. De mãos dadas, seguíamos com passos de algodão. E se fosse inverno no meu coração ou no dela, não fazia diferença: sempre eram pés de primavera aqueles que caminhavam lado a lado florindo sóis pelas calçadas. Coisas do amor.
Naquela manhã, pela primeira vez, o hábito foi quebrado. Limitou-se a me levar ao portão. O corpo onde habitava estava cansado demais para caminhar comigo os costumeiros quarteirões floridos. Quem sabe para driblar o desconforto causado pela nova circunstância, inventamos um outro jeito de afastamento: ao nos despedirmos, brincamos de roda. Foi uma dança rápida e imensa. Ainda sou capaz de sentir a música emanada do nosso riso. De experimentar o lume com o qual aquela vida me olhava enquanto a minha dançava com ela.
Não sabíamos, mas aquele foi o nosso último encontro. Dias depois, a minha avó deixou aquela casa humana onde eu me habituei a encontrá-la desde que nasci. Aquele punhado de manhãs de céu azul anoiteceu naquele corpo para despertar em outros jardins. Caminhar de mãos dadas, quem sabe, também com outros amores. Florir sóis por outras calçadas. E por mais previsível que fosse a chegada daquele momento, acostumar-me com esta novidade já antiga é um exercício que talvez eu realize durante toda a minha vida.
Anos mais tarde, ao me dar conta de que na vez mais recente em que a vi nós nos despedimos brincando de roda, o meu coração riu um riso novo, feito de gratidão e reverência à sabedoria que tece grande parte das belezas. Nada poderia ser mais fiel àquele amor tão lúdico que permeou o nosso encontro, embrulhado para presente num papel com cheiro de Deus. Olhando em retrospectiva, percebo que, embora nem sempre tenhamos conseguido, também fazia parte do nosso acordo tácito a vontade de valorizar os momentos compartilhados como se fossem únicos. De saboreá-los como se fossem os últimos. Parece que lembrávamos que, às vezes, realmente são.
Nem sempre a saudade é tão generosa com a gente. Às vezes, ela fica apegada um bocado de tempo a recordações tristes, culpas, mágoas, arrependimentos por coisas que fizemos e por outras que achamos que poderíamos ter feito, mas não soubemos. Nem sempre a gente sabe, é a pura verdade, e a gente precisa se perdoar para seguir em frente. Para nos liberar e liberar o outro, porque a falta de perdão acaba sendo uma cela para dois. E já que o tempo não passa no coração, acho que é possível atualizar a nossa memória o tempo todo. Podemos ser generosos com nós mesmos. Buscar nos nossos arquivos o que existe lá de doçura, de graça, de amorosidade. Saborear as lembranças risonhas que também trazemos conosco. Utilizá-las como pontes que nos ligam a quem amamos quando a vida nos pede para inventar outros jeitos de encontro.

domingo, 1 de novembro de 2015

UM POEMA DE AMOR



Quero escrever um poema que diga o quanto é precioso sentir amor e expressá-lo. Isso que parece lençol cheiroso, trocado ainda agora, quando fala macio com o corpo da gente. Isso que parece o mar quando ele canta a sua música feita com acordes de ondas e silêncio. Isso que parece flor recém-nascida da planta viçosa que a semente sonhou. Isso que parece sol de manhãzinha, quando ele sorri, tranquilo, pra longa noite do mundo.
Quero escrever um poema que diga que eu me descobri mais feliz quando comecei a me amar melhor e a estender esse amor. Quando não estamos nos amando, vivemos com a percepção de que apenas o amor recebido é capaz de nos alimentar. De que teremos somente o que pudermos receber, as mãos sempre estendidas na expectativa ansiosa do recebimento. Mas, quando sentimos o amor circular em nós, descobrimos uma sutileza até então ignorada: dar amor é também recebê-lo.
Quero escrever um poema que diga que crescer é percorrer, passo a passo, esse caminho. Tornar-se cada vez mais alegre por esse puro exercício do querer bem. Por essa vontade tão clara, tão limpa, de que as pessoas sejam felizes e desfrutem da liberdade. Por essa ideia amorosa de que tenham saúde no corpo e não lhes falte saúde na alma. De que se for inevitável sofrer, que passe logo. De que descubram o contentamento que, por natureza, nos habita. De que não saiam dessa vida sem descobrir a força radiante e transformadora do amor.