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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

DESAPOSENTAR


Ele chegou à praça com uma marreta. Endireitou a estaca de uma muda de árvore e firmou batendo com a marreta. Amarrou a muda na estaca e se afastou como pra olhar uma obra de arte.
Não resisti a puxar conversa:
- O senhor é da prefeitura?
- Não, sou da Alice, faz quarenta e dois anos. Minha mulher.
- Ah... O senhor quem plantou essa muda?
- Não, foi a prefeitura. Uma árvore velha caiu, plantaram essa nova de qualquer jeito, mas eu adubei, botei essa estaca aí. Olha que beleza, já está toda enfolhada. De tardezinha eu venho regar.
- Então o senhor gosta de plantas.
- De plantas, de bicho, até de gente eu gosto, filho.
- Obrigado pela parte que me cabe... Ele sorriu, tirou um tesourão da cinta e começou a podar um arbusto.
- O senhor é aposentado?
- Não, sou desaposentado. Foi podando e explicando: - Quando me aposentei, já tinha visto muito colega aposentar e murchar, que nem árvore que você poda e rega com ácido de bateria... Sabe que tem comerciante que rega árvore com ácido de bateria pra matar, pra árvore não encobrir a fachada da loja?
 - É... aí fica com a loja torrando no sol! Picotou os galhos podados, formando um tapete de folhas em redor do arbusto.
- É bom pra terra... tudo que sai da terra deve voltar pra terra... Mas então, eu já tinha visto muito colega aposentar e murchar. Botando bermuda e chinelo e ficando em casa diante da televisão. Ou indo ao boteco pra beber cerveja, depois dormindo de tarde e engordando... Até que acabaram com derrame ou infarto, de não fazer nada e ainda viver falando de doença.
Cortou umas flores, fez um ramalhete: - Pra minha menina. A Alice.
Ela é um ano mais velha que eu, mas fica uma menina quando levo flor. Ela também é desaposentada. Ajuda na escola da nossa neta, ensinando a merendeira a fazer doce com pouco açúcar, salgados com os restos dos legumes que antes eram jogados fora. E ajuda na creche também, no hospital. Ihh...
A Alice vive ajudando todo mundo, por isso não precisa de ajuda, nem tem tempo de pensar em doença. Amarrou o ramalhete com um ramo de grama, depositou com cuidado sobre um banco.
- Pra aguar as mudas eu tenho que trazer o balde com água lá de casa. Fui à prefeitura para botarem uma torneira aqui. Disseram que não, senão o povo ia beber água e deixar vazando. Falei pra botarem uma torneira com grade e cadeado que eu cuidaria.
Falaram que não. Eu teria que ficar com o cadeado e então ia ser uma torneira pública com controle particular, e não pode. Sorriu, olhando a praça.
- Aí falei. Então posso cuidar da praça, mas não posso cuidar de uma torneira  Perguntaram, veja só, perguntaram se tenho autorização pra cuidar da pra;a! Nem falei mais nada. Vim embora antes que me proibisse de cuidar da praça...
Ou antes que me fizessem preencher formulários em três vias com taxa e firma reconhecida, pra fazer o que faço aqui desde que desaposentei. Tá vendo aquele pinheiro fêmea ali  A Alice que plantou. Só tinha o pinheiro macho. Agora o macho vai polinizar a fêmea e ela vais dar pinhões.
- Eu nem sabia que existia pinheiro macho e fêmea. – Eu também não sabia, filho. Ihh... aprendi tanta coisa cuidando dessa praça! Hoje conheço os cantos dos passarinhos, as épocas de floração de cada planta, e vejo a passagem das estações como se fosse um filme!
- Mas ela vai demorar pra dar pinhões, hein – falei, olhando a pinheirinha ainda da nossa altura.
Ele respondeu que não tinha pressa. – Nossa neta é criança e eu já falei pra ela que é ela quem vai colher os pinhões. Sem a prefeitura saber... e a Alice falou que, de cada pinha que ela colher, deve planar pelo menos um pinhão em algum lugar. Assim, no fim da vida, ela vai ter plantado um pinheiral espalhado por aí. Sem a prefeitura saber, é claro, senão podem criar um imposto pra quem planta árvores...
- É admirável ver alguém com tanta idade e tanta esperança! Ele riu?
- Se é Admirável eu não sei, filho, sei que é gostoso. E agora, com licença, que eu preciso pegar a Alice pra gente caminhar. Vida de desaposentado é assim? O dinheiro é curto, mas o dia pode ser comprido, se a gente não perder tempo!

domingo, 22 de novembro de 2015

DESCOBRINDO A VERDADEIRA NATUREZA DA RAIVA



No momento em que você sente raiva, você tem a tendência de acreditar que seu sentimento foi criado por outra pessoa. Você culpa esta pessoa por todo o seu sofrimento.
Mas, ao fazer um exame profundo, você talvez perceba que a semente da raiva que existe em você é a principal causa do seu sofrimento.
Muitas outras pessoas, quando confrontadas com a mesma situação, não ficariam com raiva com que você fica.
Elas ouvem as mesmas palavras, presenciam a mesma situação, mas são capazes de permanecer mais calmas, sem se deixarem afetar tanto pelas circunstâncias.
Por que você se enraivece com tanta facilidade?
Talvez isso aconteça porque a semente da raiva é muito forte, e como você não praticou os métodos destinados a cuidar bem da raiva, a semente dela pode ter sido regada no passado com excessiva frequência.,
Todos temos uma semente da raiva nas profundezas da nossa consciência. No entanto, em alguns de nós, esta semente é maior do que nossas outras sementes como a do amor e a da compaixão.
A semente da raiva pode ser maior por não ter sido cuidada através da nossa prática no passado.
Por isso, como já disse, quando começamos a cultivar a energia da plena consciência, a primeira coisa que percebemos com clareza é que a principal causa do nosso sofrimento, da nossa aflição, não é a outra pessoa, e sim a semente da raiva que existe em nós.
Nesse momento, paramos de considerar a outra pessoas culpada do nosso sofrimento. Compreendemos que ela é apenas uma causa secundária. Você sente um enorme alívio ao descobrir isso e começa a se sentir muito melhor.
Mas a outra pessoa pode ainda estar sofrendo porque não aprendeu a cuidar da própria raiva. Quando isso acontece, está na hora de ajudar o outro.

sábado, 21 de novembro de 2015

TEORIA DAS JANELAS PARTIDAS



Há alguns anos, a Universidade de Stanford (EUA), realizou uma experiência de psicologia social. Deixou duas viaturas idênticas, da mesma marca, modelo e até cor, abandonadas na via pública. Uma no Bronx, zona pobre e conflituosa de Nova York e a outra em Palo Alto, uma zona rica e tranquila da Califórnia. Duas viaturas idênticas abandonadas, dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada local.
Resultou que a viatura abandonada em Bronx começou a ser vandalizada em poucas horas. Perdeu as rodas, o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram. Contrariamente, a viatura abandonada em Palo Alto manteve-se intacta.
Mas a experiência em questão não terminou aí. Quando a viatura abandonada em Bronx já estava desfeita e a de Palo Alto estava há uma semana impecável, os pesquisadores partiram um vidro do automóvel de Palo Alto. O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o de Bronx, e o roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo ao mesmo estado que o do bairro pobre. Por quê que o vidro partido na viatura abandonada num bairro supostamente seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso? Evidentemente, não é devido à pobreza, é algo que tem que ver com a psicologia humana e com as relações sociais.
Um vidro partido numa viatura abandonada transmite uma ideia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação. Faz quebrar os códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras. Induz ao “vale-tudo”. Cada novo ataque que a viatura sofre reafirma e multiplica essa ideia, até que a escalada de atos cada vez piores, se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.
Baseados nessa experiência, foi desenvolvida a ‘Teoria das Janelas Partidas’, que conclui que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores. Se se parte um vidro de uma janela de um edifício e ninguém o repara, muito rapidamente estarão partidos todos os demais. Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se gerará o delito.
Se se cometem ‘pequenas faltas’ (estacionar em lugar proibido, exceder o limite de velocidade ou passar com o sinal vermelho) e as mesmas não são sancionadas, então começam as faltas maiores e delitos cada vez mais graves. Se se permitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando estas pessoas forem adultas.
Se os parques e outros espaços públicos deteriorados são progressivamente abandonados pela maioria das pessoas, estes mesmos espaços são progressivamente ocupados pelos delinquentes.
A Teoria das Janelas Partidas foi aplicada pela primeira vez em meados da década de 80 no metrô de Nova York, o qual se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade. Começou-se por combater as pequenas transgressões: lixo jogado no chão das estações, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento de passagem, pequenos roubos e desordens. Os resultados foram evidentes. Começando pelo pequeno conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.
Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, baseado na Teoria das Janelas Partidas e na experiência do metrô, impulsionou uma política de ‘Tolerância Zero’. A estratégia consistia em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à Lei e às normas de convivência urbana. O resultado prático foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.
A expressão ‘Tolerância Zero’ soa a uma espécie de solução autoritária e repressiva, mas o seu conceito principal é muito mais a prevenção e promoção de condições sociais de segurança. Não se trata de linchar o delinquente, pois aos dos abusos de autoridade da polícia deve-se também aplicar-se a tolerância zero.
Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito. Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.
Essa é uma teoria interessante e pode ser comprovada em nossa vida diária, seja em nosso bairro, na rua onde vivemos.
A tolerância zero colocou Nova York na lista das cidades seguras.
Esta teoria pode também explicar o que acontece aqui no Brasil com corrupção, impunidade, amoralidade, criminalidade, vandalismo, etc.
Reflita sobre isso!

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

CAMINHAR



A cada nova manhã da cama nos levantamos para enfrentar os afazeres da rotina.
Deveres que nos esperam; obrigações que nos mantêm em movimento.
Em meio ao peso dos dias e das horas, quão frequentemente paramos para refletir sobre para onde estão nos conduzindo os nossos passos?
Mais importante do que a velocidade dos nossos passos é o sentido do nosso caminhar.
Os nossos passos estão nos aproximando dos nossos sonhos mais sinceros?
Quais são mesmo os nossos sonhos mais sinceros?
Felicidade talvez seja o cuidar dos nossos passos de modo que nos conduzam à melhor versão de nós mesmos:
O nosso coração mais puro, a nossa alma mais solidária.
A vida é um eterno caminhar.
Quantos passos serão necessários ainda...até que alcancemos o melhor de nós mesmos?
Somos todos peregrinos, somos passageiros do tempo-espaço.
O fio que nos prende a esta vida terrena, tão tênue e delicado, pode se romper a qualquer instante.
O dia de amanhã é sempre uma possibilidade, jamais uma garantia.
Este corpo físico, tão belo e tão frágil,é nosso abrigo temporário, – feito um ninho para a ave da alma.
O corpo físico é um ninho para a ave da alma.
O ninho é importante, mas infinitamente mais importante é a ave que ele abriga.
O corpo é importante, mas infinitamente mais importante é a alma que o move e nele sonha.
Como temos cuidado da saúde do nosso corpo?
Como temos cuidado da saúde da nossa alma?
O que significa cuidar da saúde da alma?
A Compaixão, Caridade, Generosidade, Bondade, Gratidão, Contentamento,  Amor, Perdão, que lugar ocupam na nossa vida?
Onde mora a nossa Bem-aventurança?
Onde habita a nossa Bem-aventurança?
Como tornar mais suave e belo o voo da nossa alma?
Como podemos fortalecer as nossas asas espirituais?
Outros céus, outros horizontes nos esperam.
Esta vida terrena é deveras preciosa, pois representa uma oportunidade única para aprimorarmos o voo da nossa alma.
A colheita nos campos da Eternidade está vinculada ao que cultivamos nesta vida terrena.
Quem planta Bondade, Amor, Generosidade haverá de colher Bem-aventurança.
O resgate da espiritualidade, o retorno à poética.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

TRIBUTO AO TEMPO



Dizem que a vida
é curta, mas não
é verdade.
A vida é longa... para quem consegue viver pequenas felicidades.
E essa tal felicidade anda por aí, disfarçada,
como uma criança tranquila brincando
de esconde-esconde.
Infelizmente às vezes não percebemos isso e passamos nossa existência colecionando ‘NÃO’:
a viagem que não fizemos,
o presente que não demos,
a festa que não fomos,
o amor que não vivemos,
o perfume que não sentimos.
A vida é mais
emocionante quando se é
ator e não expectador,
quando se é piloto e
não passageiro,
pássaro e não paisagem,
cavaleiro e não montaria.
E como ela é feita de instantes, não pode nem deve ser medida em anos ou meses, mas em minutos e segundos.
Esta mensagem é um tributo ao tempo.
Tanto aquele tempo que você soube aproveitar no passado quanto aquele tempo que você não vai desperdiçar no futuro.
Porque a vida é agora.
Não tenha medo do futuro,
apenas lute e se esforce
ao máximo para que ele
seja do jeito que você sempre desejou.
A morte não é a maior
perda da vida.
A maior perda da vida é o
que morre dentro de nós enquanto vivemos.