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quarta-feira, 10 de junho de 2015

CAÇA




Por que é importante ler? Pergunta recorrente em qualquer encontro de escritores com estudantes. E a gente acaba desfiando um rosário de respostas prontas, um blá blá blá repetitivo, apesar de necessário. Mas hoje vou dar um exemplo prático. Estava lendo uma revista - nem era um livro - quando me deparei com uma entrevista feita com o chef Philippe Legendre, estrela da gastronomia francesa de quem nunca provei um ovo frito. Ignorante sobre quem era o cara, li. Lá pelas tantas, o repórter: "É verdade que o senhor adora caçar?" O chef: "Eu caço o silêncio. Atiro no barulho."
Bum!
Perdizes, faisões, coelhos, sei lá o quê o tal homem caça todo final de semana - e nem me interessa. O importante foi o impacto causado por aquelas duas frasezinhas curtas que pareciam um poema e que empurraram meu pensamento para além daquelas páginas, me puseram a pensar sobre minhas próprias perseguições. Caço o silêncio. Atiro no barulho. Eu idem, monsieur.
Eu caço o sossego. Atiro na tevê.
Eu caço afeto. Atiro em gente rude.
Eu caço liberdade. Atiro na patrulha.
Eu caço amigos. Atiro em fantasmas.
Eu caço o amanhã. Atiro no ontem.
Eu caço prazeres. Atiro no tédio.
Eu caço o sono. Atiro no sol.
E quando caço o sol, atiro em relógios. Acho que é isto que a leitura faz. Nos solta na floresta com uma arma na mão. Nos dá munição para atirar em tudo o que nos distrai de nós mesmos, no que nos desconcentra. O livro não permite que fiquemos sem nos escutar. A leitura faz eu mirar em mim e acertar no que eu nem sabia que também sentia e pensava. E, por outro lado, me ajuda a matar tudo o que pode haver em mim de limitante: preconceitos, ideias fixas, hipocrisias, solenidades, dores cultuadas.
Lendo, eu caço a mim e atiro em mim.

terça-feira, 9 de junho de 2015

O AMANHÃ NÃO NOS PERTENCE




Viver o dia-a-dia é a mais natural e a mais difícil de todas as coisas. Contentar-se do presente, do aqui e do agora exige de nós um grande autocontrole dos sentimentos e emoções.
As coisas que nos fizeram vibrar no passado vibram ainda hoje, mas de maneira menos intensa, com gosto de saudosismo. Passou e ficou de forma leve, como as lembranças das férias ou das primeiras batidas incontroláveis do coração.
As coisas futuras podem nos alegrar (uma felicidade esperada) ou nos fazer sofrer intensamente, antes mesmo que o esperado chegue, se chegar.
Não controlamos o que passou, porque aconteceu e não sabemos voltar atrás e não controlamos o futuro, apesar de tentarmos escolher minuciosamente os bons caminhos.
O ontem faz parte definitivamente das nossas vidas, nossa história e nossas entranhas e não podemos negá-lo, mas o amanhã não nos pertence. Ele é apenas uma possibilidade, um sonho ou um pesadelo, uma nuvem que se aproxima mas que pode, com um sopro do vento, ir em outras direções.
O hoje sim é o que temos de real e nos pertence de todo.
Antecipar alegrias e vitórias faz-nos bem, se mantemos os pés firmes no chão; antecipar perdas e partidas provoca-nos dores inúteis e frequentemente maiores ainda que o que seriam, pois já pela antecipação se multiplicam.
Devemos aprender a acolher o hoje e fazer dele o melhor que podemos, com todos os meios que tivermos. Sermos felizes, fazermos outros felizes, nos bastando de cada segundo oferto como um presente Divino que não se oferecerá uma segunda vez.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

QUE EU POSSA DIZER QUE TE AMO



Que eu possa dizer sempre: eu te amo,
pois necessito expressar esse sentimento,
que a minha alma nutre por você,
pelo seu respeito, pelo seu carinho,
pela sua forma doce de me envolver,
de me levantar o astral, da sua admiração,
que se manifesta em doce companhia,
por isso te respeito, te admiro e digo,
sem me cansar, ano após ano:
Eu preciso de você,
eu te amo!
E com esse amor que me fortalece,
sigo por qualquer caminho,
enfrentando as dores e dissabores,
das desilusões do mundo,
pois mesmo distante, sinto a sua companhia,
tudo fica mais fácil,
pois teu sorriso ilumina meu dia,
teu abraço me dá segurança,
tuas palavras me incentivam,
teus gestos são carinho puro,
e posso dizer sem engano:
preciso de você,
eu te amo!
Por fim, peço ao deuses que nos guiam,
possamos seguir juntos
por muito tempo nessa estrada,
onde carrego os meus sonhos de infância,
a esperança do adulto que grita,
o alvorecer da idade que chega,
e nos cabelos que branqueiam.
possam estar registrados,
os melhores anos da minha vida,
anos que passei ao teu lado...
Quero "amadurecer" de mão dadas com você,
e dizer ao tempo, amigo das horas,
inimigo dos amantes, que te amo hoje,
tanto quanto te amei antes,
e se há eternidade no amor,
é você que eu quero ter para sempre.
Eu preciso de você, eu te amo!
Eu acredito em você.
Autoria de Paulo Roberto Gaefke

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domingo, 7 de junho de 2015

NÃO PODE TOCAR



Entro num museu, paro em frente a um quadro, a uma escultura, a uma cerâmica, e enxergo o aviso: não pode tocar. Não posso, então não toco, tudo bem. Não tocarei pra não estragar, pra não quebrar, pra durar por muitos séculos. Nada de sentir a textura do material, nada de deixar minhas digitais impressas, nada de arranhar a tela com minhas unhas mal lixadas, de desgastar as cores com meus dedos imundos. Então a gente respeita, não chega muito perto, não atravessa a linha amarela, nada de macular a obra com nosso hálito quente e nosso olhar aproximado demais.
Assim é também entre homens e mulheres, entre pais e filhos, entre amigos que procuram se proteger: não se pode tocar em determinados assuntos.
Há questões que arriscam ser maculadas com palavras, que um olhar aproximado demais poderia danificar. Instaura-se sempre um silêncio de museu ao nos aproximarmos de temas perigosos. Tolera-se apenas o som da tevê, de um teclado de computador, de alguém falando ao telefone, ruídos parecidos com silêncio, já que não fazem barulho excessivo, não incomodam o suficiente. Palavras incomodam o suficiente. Vamos falar sobre o que nos aconteceu dez anos atrás. Vamos conversar sobre a morte do seu pai. Vamos tentar entender juntos a razão de você estar bebendo desse jeito. Me diz o que te perturbou na infância. Não, não quero tocar neste assunto.
Mantenha-se atrás da faixa amarela, não chegue muito perto, não acerque-se de meus traumas, não invada meus mistérios, não atrite-se com o meu passado, não tente entender nada: é proibido tocar no sagrado de cada um.
Todas as relações do mundo possuem sua prateleira de cristais. Há sempre um suspense, uma delicadeza ao transitar pela fragilidade do outro. Melhor não falar muito alto, é mais prudente ir devagar e com cuidado. Para não estragar, pra não quebrar, pra durar por muitos séculos.