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terça-feira, 5 de maio de 2015

AS VOLTAS DO MUNDO E DO AMOR



No livro Perto do Coração Selvagem, romance de estreia da escritora Clarice Lispector, a personagem Joana, em um determinado momento, sente-se confusa por estar sofrendo por algo que, um dia, a tornou terrivelmente feliz.
Acontece muito. A dor e o prazer alternarem-se em volta do mesmo motivo. Passam-se anos, ou meses, ou horas, e aquilo que nos deu tamanha vontade de viver torna-se a razão de tanta angústia e lágrima. E o mais exaustivo é que este é um fenômeno incompreensível.
Sendo de impossível entendimento, nada pode-se esclarecer aqui, a não ser dizer que, na maioria das vezes, é o amor que provoca tal contradição. O tempo passa e o amor sofre mutações: de ansioso passa a ser calmo, de constante passa a ser inconstante, de onipotente passa a ser falível.
Nós, por outro lado, também mudamos. De carentes a auto suficientes, de infantis a maduros, de ternos a ríspidos. Somos igualmente poderosos e igualmente fracos. E a metamorfose do ser humano, como a metamorfose do amor, gera pânico: que amor é esse que um dia me faz explodir de alegria e que no outro dia me implode? Que ser é esse que sou, que um dia aceita as contingências de um sentimento mutante e que no outro dia o quer estático, igual como sempre foi?
Há exemplos mais simples. Ele te amou e isso te fez feliz. Ele deixou de te amar e isso te tornou infeliz. Felicidade e dor em alternados momentos e pelo mesmo motivo.
Ela era passiva e caseira, e isso deixou você apaixonado. Ela manteve-se passiva e caseira, e você passou a sonhá-la agitada e independente, e de repente não a quis mais. Ela não mudou, mas você mudou, e o amor acompanhou a mudança.
Não há como parar o tempo, cristalizar o que nos enche de êxtase. Este êxtase um dia se transformará em algo que nos perfurará feito lâmina. Porque assim é: a terra gira em torno do sol e nós giramos em torno de nós mesmos, sem descanso.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

MEDIDAS E DESMEDIDAS



Nem sempre sei onde encontrar o equilíbrio para o bem viver.
Aprendemos que devemos viver hoje sem pensar no amanhã, mas que tudo tem o seu tempo certo. Alguns dizem que cada minuto é único, insubstituível e irrecuperável e outros que um minuto pode conter toda uma eternidade.
Nos encontramos assim nesse vão de não querer tomar decisões precipitadas e não deixar o tempo passar sem ter aproveitado tudo e o máximo que podemos.
Não existem medidas na vida. Tudo parece uma grande incógnita e o sentimento de arrependimento de ter feito e do não ter feito são dolorosos da mesma forma. Se voltássemos atrás para tomar outras decisões, teríamos certamente outros tipos de pensamentos e arrependimentos. Não sabemos guiar a vida, apenas acolhê-la.
A vida é imprevisível! Imprevisíveis são as consequências das decisões que tomamos e das que prorrogamos.
Reconhecer os próprios erros, assumi-los e aprender a gerenciá-los é sinal de sabedoria e maturidade.
Magoar-se contínua e intencionalmente porque pegou-se caminhos errados é uma agressão desnecessária contra o próprio eu. O sofrimento não diminui a pena.
O importante é olhar para a frente, assumir a vida como um todo, viver as dores como um mal passageiro e as alegrias como se pudessem durar toda a eternidade.
Ninguém está isento das pedras, dos caminhos tortuosos, mas também não do nascer e do pôr do sol, dos campos floridos e dos momentos de felicidade que fatalmente chegam.
A vida nos pertence num todo, com as suas medidas e desmedidas!
E Deus não vê o que fizemos ou deixamos de fazer, Ele não nos condena continuamente. Ele vê os propósitos do nosso coração, a nossa vontade de ser e fazer melhor, a nossa busca, mesmo se por caminhos sinuosos, da felicidade.
E Ele reconstrói nosso coração, tal qual um oleiro amoroso do seu trabalho.
As pessoas que creem nessas verdades não deixarão de se ajoelhar e não impedirão as lágrimas, mas terão, no fim da estrada, a sensação de terem extraído todo o néctar da vida e descansarão, saciadas.

domingo, 3 de maio de 2015

CAPITÃO DA NAU



Sou eu, sim, sou eu, o compositor da música da minha vida,
o escultor da obra que enfeitará ou empobrecerá o meu destino,
o capitão do navio que atravessa os rios turbulentos da vida,
eu sou o escritor dessa peça, que às vezes é puro drama,
e por vezes, comédia que me faz rir sem querer.
Sou eu, sim, sou eu mesmo,
e não quero transferir para ninguém os resultados dessa direção,
se chover, eu abro o guarda chuva, preparo as velas, coloco a capa,
se o sol estiver muito forte, aproveito para me bronzear,
e se me derem um limão, faço uma limonada.
Nada pode me abater, já passei por muitas tormentas e tempestades,
já ouvi desaforos, engoli sapos e fiquei deprimido,
hoje sei quem sou e onde quero chegar.
Meu destino?
É logo ali, entre a ilha Felicidade e o território da Vitória,
vou passando com meu barco chamado Perseverança,
cruzando o Cabo do Amor, rasgando as dificuldades do vento contrário,
afinal de contas,
hoje sou eu quem dirige o leme, quem decide a rota,
e decidi apontar para o infinito, para o amor que busco,
e nada pode me impedir de chegar no porto do seu coração.
Autoria de Paulo Roberto Gaefke

www.meuanjo.com.br

sábado, 2 de maio de 2015

TODO O RESTO



Certo e errado são convenções que confirmam-se com meia dúzia de atitudes. Certo é ser gentil, respeitar os mais velhos, seguir uma dieta balanceada, dormir oito horas por dia, lembrar dos aniversários, trabalhar, estudar, casar e ter filhos, certo é morrer bem velho e com o dever cumprido. Errado é dar calote, rodar de ano, beber demais, fumar, se drogar, não programar um futuro decente, dar saltos sem rede. Todo mundo de acordo?
Todo mundo teoricamente de acordo, porém a vida não é feita de teorias. E o resto? E tudo aquilo que a gente mal consegue verbalizar, de tão intenso? Desejos, impulsos, fantasias, emoções. Ora, meia dúzia de normas preestabelecidas não dão conta do recado. Impossível enquadrar o que lateja, o que arde, o que grita dentro de nós.
Somos maduros e ao mesmo tempo infantis, por trás do nosso autocontrole há um desespero infernal. Possuímos uma criatividade insuspeita, inventamos músicas, amores e problemas e somos curiosos, queremos espiar pela fechadura do mundo para descobrir o que não nos contaram. Todo o resto.
O amor é certo, o ódio é errado e o resto é uma montanha de outros sentimentos, uma solidão gigantesca, muita confusão, desassossego, saudades cortantes, necessidade de afeto e urgências sexuais que não se adaptam às regras do bom comportamento. Há bilhetes guardados no fundo das gavetas que contariam outra versão da nossa historia, caso viessem a público. Todo o resto é o que nos assombra, as escolhas não feitas, os beijos não dados, as decisões não tomadas, os mandamentos que não obedecemos, ou que obedecemos bem demais – a troco de que fomos tão bonzinhos? Há o certo, o errado e aquilo que nos dá medo, que nos atrai, que nos sufoca, que nos entorpece. O certo é ser magro, bonito, rico e educado. O errado é ser gordo, feio, pobre e analfabeto, e o resto nada tem a ver com estes reducionismos, e nossa fome por ideias novas, e nosso rosto que se transforma com o tempo, e nossas cicatrizes de estimação, nossos erros e desilusões.
Todo o resto é muito vasto. E nossa porra-louquice, nossa ausência de certezas, nossos silêncios inquisidores, a pureza e inocência que nos mantém vivas dentro de nós mas que ninguém percebe, só porque crescemos. A maturidade é um álibi frágil. Seguimos com uma alma de criança que finge saber direitinho tudo o que deve ser feito, mas que no fundo entende muito pouco sobre as engrenagens do mundo. Todo o resto é tudo aquilo que ninguém aplaude e ninguém vaia, porque ninguém vê.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

MÃES HEROÍNAS



Mães heroínas são essas mulheres valentes e extraordinárias que cumprem o papel de mãe e pai ao mesmo tempo.
Educar, principalmente nos dias atuais, onde os conceitos são completamente diferentes daqueles que aprendemos, não é tarefa fácil nem para um casal, onde a carga fica pelo menos dividida. Para uma mãe sozinha é um verdadeiro desafio.
Mães de maneira geral nunca tiram férias. Elas são o que são em tempo integral e com todos os extras possíveis. As mães sós vão além dos extras. Elas precisam pensar por dois, agir por dois, decidir por dois, ser más, quando para um filho ser mau significa receber um não, e ouvir isso do filho com o coração doendo.
Elas precisam ter sabedoria para saber que dar presentes, ceder quando não devem, não substitui a presença de um pai; elas precisam decidir sozinhas e arcar com as responsabilidades das suas escolhas sozinhas. Precisam fazer-se respeitar e guardar o limite mãe-filho-mãe. Precisam ensiná-los que elas têm uma vida independente deles e que deixar-se amar e amar outra pessoa não vai modificar o sentimento delas em relação a eles.
Mães que criam sós seu ou seus filhos são mulheres inteiras, vestidas com a armadura da paciência, resignação, força e coragem. Bem mais que alimentar e vestir, elas precisam preparar seus tesouros para a vida, ensinar a diferença entre bem e o mal, o certo e o errado.
Elas precisam estar sempre disponíveis, sem tréguas, noite e dia, a cada dia do ano.
Essas mães que são sozinhas por escolha ou fatalidade merecem, como todas as outras, carinho e compreensão; elas merecem, como todas as mamães do universo, um pedacinho desse arco-íris que colore a vida e promete que no fim do túnel haverá para elas também essa coroa de flores que chamamos felicidade.