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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

PERCEPÇÃO DE SOLIDÃO



Uma mulher entra no cinema, sozinha. Acomoda-se na última fila. Desliga o celular e espera o início do filme. Enquanto isso, outra mulher entra na mesma sala e se acomoda na quinta fila, sozinha também. O filme começa.
Charada: qual das duas está mais sozinha?
Só uma delas está realmente sozinha: a que não tem um amor, a que não está com a vida preenchida de afetos. Já a outra foi ao cinema sozinha, mas não está só, mesmo numa situação idêntica a da outra mulher. Ela tem uma família, ela tem alguém, ela tem um álibi.
Muitas mulheres já viveram isso - e homens também. Você viaja sozinha, almoça sozinha em restaurantes, mas não se sente só porque é apenas uma contingência do momento - há alguém à sua espera em casa. Esta retaguarda alivia a sensação de solidão. Você está sozinha, não é sozinha.
Então de repente você perde seu amor e sua sensação de solidão muda completamente. Você pode continuar fazendo tudo o que fazia antes - sozinha - mas agora a solidão pesará como nunca pesou. Agora ela não é mais uma opção, é um fardo.
Isso não é nenhuma raridade, acontece às pencas. Nossa percepção de solidão infelizmente ainda depende do nosso status social. Se você tem alguém, você encara a vida sem preconceitos, você expõe-se sem se preocupar com o que pensam os outros, você lida com sua solidão com maturidade e bom humor. No entanto, se você carrega o estigma de solitária, sua solidão triplicará de tamanho, ela não será algo fácil de levar, como uma bolsa. Ela será uma cruz de chumbo. É como se todos pudessem enxergar as ausências que você carrega, como se todos apontassem em sua direção: ela está sozinha no cinema por falta de companhia! Por que ninguém aponta para a outra, que está igualmente sozinha?
Porque ninguém está, de fato, apontando para nenhuma das duas. Quem aponta somos nós mesmos, para nosso próprio umbigo. Somos nós que nos cobramos, somos nós que nos julgamos. Ninguém está sozinho quando curte a própria companhia, porém somos reféns das convenções, e quando estamos sós, nossa solidão parece piscar uma luz vermelha chamando a atenção de todos. Relaxe. A solidão é invisível. Só é percebida por dentro.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

COM O CORAÇÃO



"Nunca se verá bem sem o coração; o essencial é invisível para os olhos".
Esta frase, imortalizada por Antoine de Saint-Exupéry, é na verdade um grande ensinamento bíblico.
Ver com o coração é ver mais que ver com os olhos físicos; é ver com os olhos da alma. É olhar fundo, bem além da aparência. 
Com frequência julgamos pessoas pelo que vemos de imediato: bonita, feia, simpática ou não, vestida ou malvestida. Julgamos povos e julgamos costumes. Tudo isso através do que os nossos olhos veem, nunca através do que nosso coração nos mostra. 
Muitas vezes quando encontrarmos casais que pensamos desencontrados (quem nunca pensou encontrar?!), estamos pré-julgando, até mesmo sem má intenção. Na verdade, o que liga pessoas assim é que elas veem cada um no outro o que outras pessoas não veem. Elas vêm o interior. É por isso que para o amor não existe justificativa, pois esse não conhece outros olhos além dos do coração.
Antes de julgar que conhecemos alguém, que conhecemos um certo de tipo de povo, deveríamos fechar nossos olhos físicos e abrir os da alma. É bem provável que tivéssemos muitas surpresas. Provavelmente encontraríamos muito mais pessoas bonitas no nosso caminho do que podemos supor.
Porque no fundo, não existe cor, idade, raça ou sexo. Cada coração é capaz de se emocionar, de amar, de sentir. Todas as pessoas possuem necessidades e muitas vezes carências. Tanto o sorriso quanto as lágrimas são linguagens comuns à qualquer povo, de qualquer cor, raça ou classe social. São os únicos meios de comunicação universal. Viajando em qualquer país, em qualquer continente, um sorriso vai ser sempre um sorriso, uma lágrima nunca vai deixar de ser uma lágrima.
Deveríamos fazer mais confiança ao nosso coração que aos nossos olhos. Deveríamos dar uma oportunidade a mais a cada pessoa que cruza nosso caminho antes de etiquetá-la. Aliás, nem deveríamos etiquetar ninguém, pois o que eu não vejo, talvez um outro verá. E todo mundo merece uma segunda chance, todo mundo merece ser "visto" antes de ser olhado.

domingo, 7 de dezembro de 2014

VOCÊ CARREGA OS CORVOS ALHEIOS, PICANDO O LOMBO DO SEU JUMENTO?



Libertar-se dos seus tiranos mentais é livrar-se das suas reações negativas, diante de julgamentos alheios desprovidos de amor, bondade e compaixão.”
Se eu espero compaixão, mas quando chega a vez do outro esperar o mesmo, eu não sinto a menor compaixão, então, estamos empatados.
Vejamos o tirano da forma física, por exemplo. Pode-se fazer plástica, lipo, comer uma folha de alface e malhar. Ainda assim poderá estar insatisfeito e sem noção de como funciona a própria mente nessa questão.
Quando se faz algo contrariado, sem vontade, como se fosse forçado, o resultado não é bom. Isso vale para tudo, incluindo o casamento, a solidão, ou ainda lidar com um idoso prepotente, lamuriento, desfilando o ego da vítima o tempo todo. Vem o adversário com sua autoestima no rodapé e segreda: “Sou fraco, feio, infeliz, minha vida tem tanto sofrimento, não consigo resolver isso.”
Chispa, coisa ruim!
O nosso Observador Interno, atento às manobras mentais, sempre nos ensina alguma coisa a partir de qualquer ação, positiva ou negativa. Ativá-lo é um dos exercícios contínuos da Prática Humi. Ser mais observador e menos reativo não é uma tarefa fácil. Bem, neste mundo, facinho, facinho, só tem mesmo o que a mente acreditar que é fácil.
Nós temos algumas formas de iniciar o exercício de controle mental quanto ao “adversário interior” da forma física, do casamento, da solidão, ou de alguma assistência que prestamos e exerce muitas turbulências domésticas:
1. Não levar tudo tão a sério.
2. Brincar mais, ...tipo, a mente pode ser uma anta e o corpo um jumento quando você não os controla.
3. Anta, jumento, jiló, maracujá, baleia – se for uma legítima e engraçada brincadeira. Se for uma tirania disfarçada, pare com isso e não seja você o tirano da sua vida.
4. Lembrar que acima da anta nós temos uma inteligência estratégica para usar em tudo.
5. O nosso foco passa a ser resgatar a autoestima.
6. O que o outro diz, sente e pensa, isso é com ele. Não tome a carga dele para si, porque a sua já é suficiente. E por falar em brincadeira, a carga do jumento alheio é dele. Não vá você carregar tudo nas costas, inclusive alguns jumentos bem pesados. Tire os jumentos das suas costas e faça-os andarem com as suas próprias patas.
7. Quem se associa com alguém, por casamento, parceria, assistência ou amizade, pode acabar se debatendo com os seus respectivos corvos. Veja se tem sentido você carregar os corvos alheios, picando o lombo do seu jumento. Se gostar, fique. Se estiver preso e sofrendo muito, não basta rezar para findar o seu tormento. Assim como construiu sua cadeia, na mente, comece a construir sua estrada livre. Tudo isso adoece e diminui os seus anos de vida. E no fim engorda ou seca, e começa o desmonte físico, emocional e intelectual.
Quando a baixa autoestima interfere, esquecemos que a nossa vida interior é a fonte que exerce a força de atração. Depois de qualquer luta com os adversários, nossa imunidade cai, passamos por um estado de choque e depressão. A máscara do rosto fica tensa, caída e feia. A anta domina e o jumento empaca. Casais explosivos, infelizes e briguentos que o digam. Cuidadores de idosos materializados em forma de vítima sabem o que é isso. Solteiras furiosas e infelizes com sua gordura vão à lona, quando escutam: “Não quero ter uma amiga gorda.”
Mas a verdade é que nenhuma pessoa linda escapa da baixa autoestima, afetando alguma área da sua vida.
Libertar-se dos outros é libertar-se desse ego tirano que nos habita, rindo mais de si mesmo do que se levando tão a sério nos melindres da tirania interna ou externa.
Quanto mais você conhece a sua mente e seus aspectos psíquicos, tanto mais tornará rica a sua vida interior. Depois de uma batalha, se levantará cada vez mais rápido, até compreender a natureza que está por dentro de você e por fora.
Uma parte boa, repito, é se livrar de pessoas que só nos acrescentam padecimentos e ainda acham que estão no seu direito, cobertas pela prepotência. A questão é quando a nossa vida interior é fonte de atração de prepotentes, críticos ferinos e ogros explosivos. Os laços são amarrados com os substratos psíquicos da baixa autoestima. O inconsciente deles e o nosso se estimulam e se provocam mutuamente. Mas nenhum lado assume a responsabilidade, porque não conhecem a mente, logo, sem autoconhecimento, não praticam exercícios de controle mental sobre as emoções. Escondemos a baixa autoestima debaixo do tapete e sequer temos a coragem de olhar para ela.
Um dia, entenderá também que a anta e o jumento são felizes, porque não se preocupam com a forma física, e sua saúde e liderança decorrem de viver de acordo com as leis naturais. Antas e jumentos não têm um tirano interior chamado baixa autoestima.
E quando encontrar um amor tipo “pé quentinho” adote o lema interior: Se eu não puder te fazer feliz, nem você a mim, isso simplesmente acabou. Cada jumento de volta a sua trilha.
Claro, você é racional, jamais uma anta, jamais um jumento. Você é uma Luz que anda no mundo. Façamos valer essa Luz e tomemos agora a decisão de resgatar a nossa autoestima.
Como?
Através do autoconhecimento, sem desistência.
Você derrotará seus adversários.
Será um vencedor.
Comece por dentro.
Lá fora é reflexo, consequência, colheita.

sábado, 6 de dezembro de 2014

SER LEGAL



"Como Ser Legal" é o nome do livro que o escritor inglês Nick Hornby lançou este ano. Conta a história de um cara que era um chato e que, quando percebe que seu casamento está indo para as cucuias, resolve se transformar num benfeitor, num boa praça: e se torna mais chato ainda.
Todo mundo quer ser legal, e todo mundo se ferra na empreitada. É difícil ser legal o tempo inteiro. A gente consegue ser legal a maior parte do tempo, mas aí faz uma besteira e pronto: tudo o que você fez de bom é imediatamente esquecido e você se torna apenas aquele que fez a grande besteira. Aí você precisa de mais uns dois meses sendo exclusivamente legal para todo mundo esquecer da besteira. E quando eles esquecem, você faz outra, claro.
Mas você é legal. Você é simpático com os amigos, dá sempre uma força quando eles precisam. Você puxa papo com o garçom, abre a porta do elevador para sua vizinha entrar, você acaricia a cabeça das criancinhas, você é fiel à sua namorada, você até empresta seus discos. Você é 24 horas por dia legal, até o momento em que sua mãe pede para você almoçar na casa dela, você vai e diz que o suflê está intragável. Está mesmo. Mas ela diz que você fala isso só para implicar, aí você pede desculpas, aí ela diz que você nunca aparece e quando aparece é para reclamar, aí você diz para ela parar de fazer chantagem emocional e aí ela corre para o quarto chorando e você, que achava que sua mãe já estava na menopausa, descobre que ela ainda sofre de TPM.
Tem hora que é imprescindível chutar o balde. Tem hora que é fundamental deixar a verdade nua e crua vir à tona. Tem hora que você precisa dizer para sua namorada: eu te adoro, mas quero ficar sozinho hoje à noite, qual é o problema? O problema é que ela passa a te odiar. E você passa a achar que não tem vocação pra ser legal o tempo inteiro. E é verdade. Ninguém tem. É cansativo. Desgastante. Já somos legais à beça por tentar. Tem gente que nem isso.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

DIETA DA ALMA



Arroz, feijão, bife, ovo. Isso nós temos no prato, é a fonte de energia que nos faz levantar de manhã e sair para trabalhar. Nossa meta primeira é a sobrevivência do corpo. Mas como anda a dieta da alma?
Outro dia, no meio da tarde, senti uma fome me revirando por dentro. Uma fome que me deixou melancólica. Me dei conta de que estava indo pouco ao cinema, conversando pouco com as pessoas, e senti uma abstinência de viajar que me deixou até meio tonta. Minha geladeira, afortunadamente, está cheia, e ando até um pouco acima do meu peso ideal, mas me senti desnutrida. Você já se sentiu assim também, precisando se alimentar?
Revista, jornal, internet, isso tudo nos informa, nos situa no mundo, mas não sacia. A informação entra dentro da casa da gente em doses cavalares e nos encontra passivos, a gente apenas seleciona o que nos interessa e despreza o resto, e nem levantamos da cadeira neste processo. Para alimentar a alma, é obrigatório sair de casa. Sair à caça. Perseguir.
Se não há silêncio a sua volta, cace o silêncio onde ele se esconde, pegue uma estradinha de terra batida, visite um sítio, uma cachoeira, ou vá para a beira da praia, o litoral é bonito nesta época, tem uma luz diferente, o mar parece maior, há menos gente.
Cace o afeto, procure quem você gosta de verdade, tire férias de rancores e mágoas, abrace forte, sorria, permita que lhe cacem também.
Cace a liberdade que anda tão rara, liberdade de pensamento, de atitudes, vá ao encontro de tudo que não tem regras, patrulha, horários. Cace o amanhã, o novo, o que ainda não foi contaminado por críticas, modismos, conceitos, vá atrás do que é surpreendente, o que se expande na sua frente, o que lhe provoca prazer de olhar, sentir, sorver. Entre numa galeria de arte. Vá assistir a um filme de um diretor que não conhece. Olhe para sua cidade com olhos de estrangeiro, como se você fosse um turista. Abra portas. E páginas.
Arroz, feijão, bife, ovo. Isso me mantém de pé, mas não acaba com meu cansaço diante de uma vida que, se eu me descuido, torna-se repetitiva, monótona, entediante. Mas nada de descuido. Vou me entupir de calorias na alma. Há fartas sugestões no cardápio. Quero engordar no lugar certo. O ritmo dos dias é tão intenso que às vezes a gente esquece de se alimentar direito.