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sábado, 6 de dezembro de 2014

SER LEGAL



"Como Ser Legal" é o nome do livro que o escritor inglês Nick Hornby lançou este ano. Conta a história de um cara que era um chato e que, quando percebe que seu casamento está indo para as cucuias, resolve se transformar num benfeitor, num boa praça: e se torna mais chato ainda.
Todo mundo quer ser legal, e todo mundo se ferra na empreitada. É difícil ser legal o tempo inteiro. A gente consegue ser legal a maior parte do tempo, mas aí faz uma besteira e pronto: tudo o que você fez de bom é imediatamente esquecido e você se torna apenas aquele que fez a grande besteira. Aí você precisa de mais uns dois meses sendo exclusivamente legal para todo mundo esquecer da besteira. E quando eles esquecem, você faz outra, claro.
Mas você é legal. Você é simpático com os amigos, dá sempre uma força quando eles precisam. Você puxa papo com o garçom, abre a porta do elevador para sua vizinha entrar, você acaricia a cabeça das criancinhas, você é fiel à sua namorada, você até empresta seus discos. Você é 24 horas por dia legal, até o momento em que sua mãe pede para você almoçar na casa dela, você vai e diz que o suflê está intragável. Está mesmo. Mas ela diz que você fala isso só para implicar, aí você pede desculpas, aí ela diz que você nunca aparece e quando aparece é para reclamar, aí você diz para ela parar de fazer chantagem emocional e aí ela corre para o quarto chorando e você, que achava que sua mãe já estava na menopausa, descobre que ela ainda sofre de TPM.
Tem hora que é imprescindível chutar o balde. Tem hora que é fundamental deixar a verdade nua e crua vir à tona. Tem hora que você precisa dizer para sua namorada: eu te adoro, mas quero ficar sozinho hoje à noite, qual é o problema? O problema é que ela passa a te odiar. E você passa a achar que não tem vocação pra ser legal o tempo inteiro. E é verdade. Ninguém tem. É cansativo. Desgastante. Já somos legais à beça por tentar. Tem gente que nem isso.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

DIETA DA ALMA



Arroz, feijão, bife, ovo. Isso nós temos no prato, é a fonte de energia que nos faz levantar de manhã e sair para trabalhar. Nossa meta primeira é a sobrevivência do corpo. Mas como anda a dieta da alma?
Outro dia, no meio da tarde, senti uma fome me revirando por dentro. Uma fome que me deixou melancólica. Me dei conta de que estava indo pouco ao cinema, conversando pouco com as pessoas, e senti uma abstinência de viajar que me deixou até meio tonta. Minha geladeira, afortunadamente, está cheia, e ando até um pouco acima do meu peso ideal, mas me senti desnutrida. Você já se sentiu assim também, precisando se alimentar?
Revista, jornal, internet, isso tudo nos informa, nos situa no mundo, mas não sacia. A informação entra dentro da casa da gente em doses cavalares e nos encontra passivos, a gente apenas seleciona o que nos interessa e despreza o resto, e nem levantamos da cadeira neste processo. Para alimentar a alma, é obrigatório sair de casa. Sair à caça. Perseguir.
Se não há silêncio a sua volta, cace o silêncio onde ele se esconde, pegue uma estradinha de terra batida, visite um sítio, uma cachoeira, ou vá para a beira da praia, o litoral é bonito nesta época, tem uma luz diferente, o mar parece maior, há menos gente.
Cace o afeto, procure quem você gosta de verdade, tire férias de rancores e mágoas, abrace forte, sorria, permita que lhe cacem também.
Cace a liberdade que anda tão rara, liberdade de pensamento, de atitudes, vá ao encontro de tudo que não tem regras, patrulha, horários. Cace o amanhã, o novo, o que ainda não foi contaminado por críticas, modismos, conceitos, vá atrás do que é surpreendente, o que se expande na sua frente, o que lhe provoca prazer de olhar, sentir, sorver. Entre numa galeria de arte. Vá assistir a um filme de um diretor que não conhece. Olhe para sua cidade com olhos de estrangeiro, como se você fosse um turista. Abra portas. E páginas.
Arroz, feijão, bife, ovo. Isso me mantém de pé, mas não acaba com meu cansaço diante de uma vida que, se eu me descuido, torna-se repetitiva, monótona, entediante. Mas nada de descuido. Vou me entupir de calorias na alma. Há fartas sugestões no cardápio. Quero engordar no lugar certo. O ritmo dos dias é tão intenso que às vezes a gente esquece de se alimentar direito.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O OBVIO ULULANTE



Justamente o que é simples, o que é o mais óbvio, é aquilo que poucos fazem, afinal de contas, o mais simples é não entrar em guerras, mas os homens parecem amar um confronto, o mais óbvio no relacionamento é não trair, para não ter que chorar depois lágrimas de arrependimento, mas o ser humano trai...
Fica claro que, ninguém deveria incorporar o limite do cheque especial ao salário do mês, mas quem é que resiste?
É muito óbvio que não devemos gastar mais do que recebemos, mas, as necessidades do mundo consumista não são maiores do que os recursos que possuímos?
Não é óbvio que devemos perdoar as ofensas, sob pena de sofrermos a angústia de viver preso ao passado, como se tivéssemos um peso, uma âncora nos amarrando em qualquer ponto no mar?
Sim, o Evangelho do Cristo é o livro de conduta mais simples que um homem já escreveu, mas quem é que já aprendeu a amar seu irmão como a si mesmo? Quem é que já pode atirar a primeira pedra, por não possuir pecados?
Quem disse que nós precisamos de DVD, Videokê, Tererê, Máquina fotográfica digital de 60 pixels, computador MXXZT5, corpo malhado, "barriga de tanquinho"?
Quem disse que não podemos ter nossos cabelos brancos, nossas rugas, nossos "pés de galinha", e porque a sua boca precisa ficar torta e inchada de Botox?
Quem mandou você fumar, cheirar, se embriagar, tomar fórmula???. Tudo isso em nome de quê? Vaidade, pura vaidade, e troca de valores, o belo passou ser feio, permanecer virgem passou a ser pecado e coisa do outro mundo, não beber "uma latinha" é ser crente, não trair a pessoa amada é caretice, não falar palavrões é ser "santinho", ser eficiente na empresa virou puxa saquismo, ser bom aluno é ser CDF, ser feliz agride outras pessoas e carregar uma Bíblia, virou sinal de fanatismo...
Pobre ser humano, que evolui tanto em conhecimento e em máquinas e degrada-se espiritual e moralmente a cada novo dia, dias de dores, de doenças incuráveis, de psicopatias e degenerações, esse é o preço de querer viver, fora daquilo que é simples e óbvio: nós somos uma grande Família Universal, precisamos uns dos outros, e em quanto houver, um só de nossos irmãos no sofrimento, sofreremos todos.
Pense nisso, e faça a sua parte, de maneira simples e óbvia, seja feliz!.
Autoria de Paulo Roberto Gaefke

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CRÔNICA DE UM AMOR ANUNCIADO


Toda pessoa apaixonada é um publicitário em potencial. Não anuncia cigarros, hidratantes ou máquinas de lavar, mas anuncia seu amor, como se vivê-lo em segredo diminuísse sua intensidade.
O hábito começa na escola. O caderno abarrotado de regras gramaticais, fórmulas matemáticas e lições de geografia, e lá, na última página, centenas de corações desenhados com caneta vermelha. Parece aula de ciências, mas é introdução à publicidade. Em breve se estará desenhando corações em árvores, escrevendo atrás da porta do banheiro e grafitando a parede do corredor: Suzana ama João.
A partir de uma certa idade, a veia publicitária vai tornando-se mais discreta. Já não anunciamos nossa paixão em muros e bancos de jardim. Dispensa-se a mídia de massa e parte-se para o telemarketing. Contamos por telefone mesmo, para um público selecionado, as últimas notícias da nossa vida afetiva. Mas alguns não resistem em seguir propagando com alarde o seu amor. Colocam anúncios de verdade no jornal, geralmente nos classificados: Kika, te amo. Beto, volta pra mim. Everaldo, não me deixe por essa loira de farmácia. Joana, foi bom pra você também?
O grau máximo de profissionalismo é atingido quando o apaixonado manda colocar sua mensagem num outdoor em frente a casa da pessoa amada. O recado é para ela, mas a cidade inteira fica sabendo que alguém está tentando recuperar seu amor. Em grau menor de assiduidade, há casos em que apaixonados mandam despejar de um helicóptero pétalas de rosas no endereço do namorado, ou gastam uma fortuna para que a fumaça de um avião desenhe as iniciais do casal no céu. A criatividade dos amantes é infinita.
O amor é uma coisa íntima, mas todos nós temos a necessidade de torná-lo público. É a nossa vitória contra a solidão. Assim como as torcidas de futebol comemoram seus títulos com buzinaços, foguetório e cantorias, queremos também alardear nossa conquista pessoal, dividir a alegria de ter alguém que faz nosso coração bater mais forte. É por isso que, mesmo não sendo adepta do estardalhaço, me consterno por aqueles que amam escondido, amam em silêncio, amam clandestinamente. Mesmo que funcione como fetiche, priva o prazer de ter um amor compartilhado.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

ATRAVESSANDO ÁGUAS TURBULENTAS



Você já teve oportunidade de estar numa sala cheia de espelhos? Segundo a posição do espelho e de acordo com que dirigimos nosso olhar, temos uma nova visão. A mesma pessoa, ou mesmo objeto, pode ser visto de várias formas diferentes. Coisa simples e que todo mundo sabe. Mas o que nem todo mundo pensa é que na vida é exatamente a mesma coisa. Muda a nossa visão quando mudamos nosso olhar para outro lado.
O erro está em sempre dirigir o olhar na mesma direção. É assim quando atravessamos águas turbulentas. E é essa visão única na nossa frente que nos abate, nos conduz ao desespero. O homem só se desespera quando não consegue ver saída.
Portanto, pegue o seu espelho e tente ver outros ângulos. Talvez do outro lado a coisa não seja assim tão difícil. Quem sabe essa não é aquela oportunidade que estava faltando  te fazer dirigir o olhar para outra direção?
Somos pessoas acomodadas! Ah, terrivelmente acomodadas. Uma vez instalados, por que mudar? E quando uma situação nos obriga a ficar de pé, aí sim é que fica difícil. O fato de estarmos sempre sentados no mesmo lugar pode nos deixar com as pernas preguiçosas. Não peça nenhum esforço de si mesmo e você vai ver como pessoas também enferrujam.
Eu me pergunto qual foi a reação do povo de Israel diante do mar vermelho. Era o fim através da visão humana. É provável que alguns tenham morrido de ataque cardíaco diante do grande mar e com o exército atrás. Morrido por precipitação e falta de fé. Mas o mar se abriu no momento preciso e as pessoas puderam atravessar. Como gosto dessa história!
"Se diante de mim não se abrir o mar, Deus vai me fazer andar por sobre as águas." Desconheço o autor dessa frase, que faz parte de um hino. Mas taí um verdadeiro lema de vida. Durante muito tempo eu cantarolei essas palavras e hoje ainda procuro vivê-las. E quando olho pra frente e que tudo parece obscuro e indeciso, procuro os outros ângulos do meu espelho. E me apego à parte mais positiva. Eu sei que de uma maneira ou de outra Deus me dará uma saída, uma porta, uma janela aberta. E se na minha pequena visão eu não conseguir enxergar (podemos ser muito pequenininhos de vez em quando!), Deus vê por mim, eu creio nisso e espero.
Eu sei que não sou de pedra, não sou dura e nem indestrutível. Eu também sofro e choro às vezes. Mas o meu Deus é indestrutível e não há nada em que Ele ponha a mão que não progresse. E Ele me deu esse espelho invisível para que eu possa sempre avaliar uma situação olhando por todos os lados. E deu ao meu coração a certeza de que, se eu tiver que passar por águas turbulentas, eu passo, mas elas jamais irão me afogar.