Uma flor, quando desabrocha, jogando suas
pétalas para além de si mesma, emana luz e perfume em todas as direções. Neste
exercício de expansão, ela cumpre sua tarefa, levando cor e alegria a muitas
criaturas, enfeitando o mundo e convidando a todos ao agradecimento a Deus, o
Criador de toda essa beleza. Porém, em toda sua pureza (e fragilidade), ela
também se expõe a todas as intempéries do universo, a todas as agressões da
própria natureza, seu berço e sua morada, sua origem e seu destino.
Ainda assim, sem medo, ela se ergue em busca
de luz e calor, e se deixa sacudir pelo ar que se move à sua volta, ou queimar
pelo sol que arde no topo do céu, ou sussurrar pela chuva que despenca pesada
das nuvens. Sem hesitar, ela se doa, completa e irrestritamente, ao mundo e aos
seres, cumprindo a missão para a qual foi criada.
E, nessa jornada, ela acaba também por
murchar, secar e morrer, apagando seu brilho no mundo das formas, para espalhar
sua essência no mundo mais sutil, consciente de que, cumprida a missão, ela
mais nada tem a fazer aqui.
Sua existência, neste plano, é efêmera e
transitória, mas ela não se importa e se entrega, de corpo e alma, ao seu
destino, na certeza instintiva de que continuará vivendo e existindo em outras
instâncias, mais puras, mais sutis.
Ela sabe que sua presença, nesse plano não é
eterna e, talvez por isso mesmo, ela aproveita ao máximo este momento,
explodindo em vitalidade, consumindo-se em sua própria alegria de viver e
existir no universo de Deus, entregando-se completamente aquilo que justifica
sua existência e que, ao mesmo tempo, a destruirá, mas a fará eternamente
feliz.
Todo serviço que se presta ao outro é como uma
flor de luz no jardim espiritual da humanidade. E exatamente como uma flor,
cresce, abre-se, expande-se e projeta-se para além de si mesmo, levando luz e
perfume espiritual, como consolo, esclarecimento, esperança e amor a muitas
consciências que gravitam inconscientes em torno do ilusório mundo das formas,
sem se dar conta da real finalidade de sua própria existência.
Mas, também como uma flor, ao cumprir seu
objetivo, ele também se expõe às agressões do meio em que está plantado, às
intempéries emocionais e energéticas geradas pelas mentes desequilibradas que
se sentem atraídas por sua luz ou por aquelas que se julgam lesadas por ela,
sofrendo com esta ação.
Como a flor, ele também se desgasta, murcha e
morre para o meio em que nasceu. Sua existência também é efêmera e transitória.
Ele também não é eterno. Nada é para sempre.
Por isso, é importante que, como a flor bela e
delicada, todo aquele que presta um serviço de ajuda ao próximo tenha
consciência da transitoriedade de seu trabalho, de sua fragilidade, de sua
sensibilidade ao meio em que existe e no qual atua.
É preciso que saiba que, por mais tempo que
resista, sua existência é limitada e representa apenas uma faísca em todo o
contexto da criação. Uma faísca importante naquele momento, mas apenas uma
faísca.
É preciso que esteja consciente dessa
transitoriedade e não se prenda ao seu funcionamento ou à sua existência, pois
ele existe para mudar as pessoas e, quando as pessoas mudarem, ele não mais
será necessário e deixará de existir para dar lugar a outras formas de serviço,
a outros tipos de trabalho.
É necessário que esteja alerta para o momento
que, mesmo fugaz, tem sua beleza e seu valor para o universo, e ficará
registrado indelevelmente na mente do universo, mas não no coração dos seres
humanos.
A humanidade precisa e vai mudar. Este é o seu
destino. E com ela, mudarão os serviços que se devem prestar a ela.
Que aqueles que prestam estes serviços não se
entristeçam quando seu trabalho não for mais necessário, pois este será um
motivo de alegria, não de tristeza.
A cada degrau galgado, novas necessidades
surgirão e novas fronteiras deverão ser traçadas, novos limites deverão ser
ultrapassados, novas propostas deverão ser feitas, para que outros degraus sejam
galgados e todos possamos continuar a caminhar.
A cada flor que morre, um fruto nasce e,
dentro dele, novas sementes, promessas de vida, surgem, trazendo a renovação,
justamente o cumprimento da promessa de que a flor continuará existindo, ainda
que não em sua forma original.
A flor se desintegra, as energias que dão
forma à sua estrutura física se desagregam para se reorganizar em outras formas
de vida, para que a sua própria espécie continue.
E nesse processo, ela não hesita um segundo,
ela não vacila, ela não pensa, ela não deixa de se entregar em um átomo sequer,
instintivamente.
A cada serviço ao próximo que se deixa para
trás, outro surge mais adiante, mostrando que a renovação continua, que estamos
todos caminhando, que não estamos parados e que continuamos todos precisando
uns dos outros, uns dos serviços dos outros, uns das mãos dos outros.
Um desaparecimento nunca é o fim de algo que
existe, mas o começo de algo que deve existir logo a seguir. Nada, na verdade,
desaparece ou se desfaz, apenas se desintegra, reorganiza e recicla para
ressurgir, mais adiante, em algo novo, a serviço das necessidades do momento
que se vive.



