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domingo, 5 de janeiro de 2014

E POR FALAR EM FLORES...




Uma flor, quando desabrocha, jogando suas pétalas para além de si mesma, emana luz e perfume em todas as direções. Neste exercício de expansão, ela cumpre sua tarefa, levando cor e alegria a muitas criaturas, enfeitando o mundo e convidando a todos ao agradecimento a Deus, o Criador de toda essa beleza. Porém, em toda sua pureza (e fragilidade), ela também se expõe a todas as intempéries do universo, a todas as agressões da própria natureza, seu berço e sua morada, sua origem e seu destino.
Ainda assim, sem medo, ela se ergue em busca de luz e calor, e se deixa sacudir pelo ar que se move à sua volta, ou queimar pelo sol que arde no topo do céu, ou sussurrar pela chuva que despenca pesada das nuvens. Sem hesitar, ela se doa, completa e irrestritamente, ao mundo e aos seres, cumprindo a missão para a qual foi criada.
E, nessa jornada, ela acaba também por murchar, secar e morrer, apagando seu brilho no mundo das formas, para espalhar sua essência no mundo mais sutil, consciente de que, cumprida a missão, ela mais nada tem a fazer aqui.
Sua existência, neste plano, é efêmera e transitória, mas ela não se importa e se entrega, de corpo e alma, ao seu destino, na certeza instintiva de que continuará vivendo e existindo em outras instâncias, mais puras, mais sutis.
Ela sabe que sua presença, nesse plano não é eterna e, talvez por isso mesmo, ela aproveita ao máximo este momento, explodindo em vitalidade, consumindo-se em sua própria alegria de viver e existir no universo de Deus, entregando-se completamente aquilo que justifica sua existência e que, ao mesmo tempo, a destruirá, mas a fará eternamente feliz.
Todo serviço que se presta ao outro é como uma flor de luz no jardim espiritual da humanidade. E exatamente como uma flor, cresce, abre-se, expande-se e projeta-se para além de si mesmo, levando luz e perfume espiritual, como consolo, esclarecimento, esperança e amor a muitas consciências que gravitam inconscientes em torno do ilusório mundo das formas, sem se dar conta da real finalidade de sua própria existência.
Mas, também como uma flor, ao cumprir seu objetivo, ele também se expõe às agressões do meio em que está plantado, às intempéries emocionais e energéticas geradas pelas mentes desequilibradas que se sentem atraídas por sua luz ou por aquelas que se julgam lesadas por ela, sofrendo com esta ação.
Como a flor, ele também se desgasta, murcha e morre para o meio em que nasceu. Sua existência também é efêmera e transitória. Ele também não é eterno. Nada é para sempre.
Por isso, é importante que, como a flor bela e delicada, todo aquele que presta um serviço de ajuda ao próximo tenha consciência da transitoriedade de seu trabalho, de sua fragilidade, de sua sensibilidade ao meio em que existe e no qual atua.
É preciso que saiba que, por mais tempo que resista, sua existência é limitada e representa apenas uma faísca em todo o contexto da criação. Uma faísca importante naquele momento, mas apenas uma faísca.
É preciso que esteja consciente dessa transitoriedade e não se prenda ao seu funcionamento ou à sua existência, pois ele existe para mudar as pessoas e, quando as pessoas mudarem, ele não mais será necessário e deixará de existir para dar lugar a outras formas de serviço, a outros tipos de trabalho.
É necessário que esteja alerta para o momento que, mesmo fugaz, tem sua beleza e seu valor para o universo, e ficará registrado indelevelmente na mente do universo, mas não no coração dos seres humanos.
A humanidade precisa e vai mudar. Este é o seu destino. E com ela, mudarão os serviços que se devem prestar a ela.
Que aqueles que prestam estes serviços não se entristeçam quando seu trabalho não for mais necessário, pois este será um motivo de alegria, não de tristeza.
A cada degrau galgado, novas necessidades surgirão e novas fronteiras deverão ser traçadas, novos limites deverão ser ultrapassados, novas propostas deverão ser feitas, para que outros degraus sejam galgados e todos possamos continuar a caminhar.
A cada flor que morre, um fruto nasce e, dentro dele, novas sementes, promessas de vida, surgem, trazendo a renovação, justamente o cumprimento da promessa de que a flor continuará existindo, ainda que não em sua forma original.
A flor se desintegra, as energias que dão forma à sua estrutura física se desagregam para se reorganizar em outras formas de vida, para que a sua própria espécie continue.
E nesse processo, ela não hesita um segundo, ela não vacila, ela não pensa, ela não deixa de se entregar em um átomo sequer, instintivamente.
A cada serviço ao próximo que se deixa para trás, outro surge mais adiante, mostrando que a renovação continua, que estamos todos caminhando, que não estamos parados e que continuamos todos precisando uns dos outros, uns dos serviços dos outros, uns das mãos dos outros.
Um desaparecimento nunca é o fim de algo que existe, mas o começo de algo que deve existir logo a seguir. Nada, na verdade, desaparece ou se desfaz, apenas se desintegra, reorganiza e recicla para ressurgir, mais adiante, em algo novo, a serviço das necessidades do momento que se vive.

sábado, 4 de janeiro de 2014

DEPOIS DA TEMPESTADE




Depois das grandes tempestades em nossas vidas, às vezes, ao invés da bonança esperada, costumamos fechar a alma para balanço. E por mais que digamos estar disponíveis ao diálogo, bem no fundo do nosso coração colocamos uma porta. E esta porta fica tão trancada, que se nós mesmos não a abrirmos, tornar-se-á quase que intransponível. É como se nossa casa tivesse sido saqueada e o medo de que fosse arrombada de novo não nos deixasse viver sossegados. Visitantes cadastrados até poderiam chegar ao jardim... mas passar da soleira, quem disse?
E ficamos tantas vezes nos perguntando o porquê de ninguém se aproximar muito de nós, se pensamos, numa atitude de bloqueio à verdade, que estamos dando espaço para que todos nos visitem.
Fingimos não enxergar o letreiro de “passagem proibida” ou os cadeados enormes que colocamos nos portões e nos muros que erguemos ao redor de nós, porque é duro admitir que temos medo de mais experiências depois que uma, duas, três ou mil delas não deram certo.
Mas se só as pessoas sensíveis enxergam esse bloqueio e elas são cada vez em número menor, as não tão persistentes se afastam, com medo de que soltemos os cães bravos em cima delas e as ponhamos para correr!
Assim acabamos, por comodismo, ficando com as pessoas menos perigosas; com aquelas com quem sabemos que nunca chegaremos a ter envolvimento maior, até porque sua percepção não é tão aguçada para penetrar no nosso interior. Ficamos com aquelas com quem temos menos afinidade e pouca cumplicidade, principalmente aquela que vem do fundo da alma... Porque não queremos que ninguém invada a fortaleza inexpugnável dos nossos segredos, onde guardamos as mágoas, os ódios não passados a limpo e os amores mal sucedidos.
Não queremos saber de quem nos leia pensamentos e não pretendemos nos prender a nada, embora digamos sempre o contrário...
Embora saibamos que a falta das amarras num porto onde poderemos atracar quando estamos à deriva, pode constituir uma bela teoria de liberdade, mas não nos gratifica, pois o ser humano não nasceu para ficar só.
Nós, hoje, bem ou mal, podemos escolher nossos amores e amigos. E que possamos escolher os melhores, e não os mais cômodos. E que possamos, também, ter alguns inimigos e, entre os nossos conhecidos, pessoas incompatíveis conosco, porque são eles que nos ajudam a superar os nossos limites e nos botam para frente, nem que seja para que lhes mostremos do que e o quanto somos capazes.
Precisamos ter histórias para contar, sejam elas com finais tristes ou felizes. Precisamos passar por experiências que nem sempre são gratificantes, pois uma existência passada em brancas nuvens, é uma existência sem frutos.
Um dia, talvez, venhamos a entender melhor os mistérios da vida e, para chegarmos a um determinado ponto, muitas vezes teremos que passar por vários obstáculos.
Talvez entendamos que precisamos nos purificar sofrendo várias provações até conseguir nossos objetivos e receber alguma recompensa.
Algumas doutrinas religiosas e filosóficas tentam explicar porquê algumas pessoas sofrem e outras são poupadas e porquê alguns de nós encontram suas metades e outros passam a vida inteira a procurá-las. Mas são explicações que talvez, nós leigos, não consigamos facilmente entender. A única coisa que podemos arriscar, é que nada acontece por acaso... ou será que acontece?
Talvez, quando sofremos, estejamos passando por um processo de purificação que nunca será entendido ou aceito por nós enquanto estivermos vivendo a experiência. Talvez, quando procuramos alguém ou alguma coisa, estejamos nos informando; talvez quando encontramos tanta gente incompatível conosco é porque, de alguma maneira, somos ou fomos as pessoas determinadas a surgir em suas vidas, seja para suportá-las, ajudá-las ou para que, através delas, aprendamos alguma lição importante da serenidade à perseverança, da paciência à fé.
Mas, por mais que apanhemos, que nos escondamos para fugirmos da vida, de nós mesmos, dos machucados e rejeições, tudo passa.
O desespero nunca foi solução para nada pois, afinal, não há bem que nunca acabe e nem mal que sempre dure.
A vida sempre seguirá dando voltas. Tomara que saibamos aproveitar as ascensões para levantar quem estiver próximo de nós e as quedas para aprendermos a ser humildes.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O CASAL PERFEITO


A solidão dos homens tem a medida da solidão de suas mulheres. Isso eu disse e escrevi - e repito - em dezenas de palestras por este país afora. Aí me pedem para escrever sobre o casal perfeito: bom para quem gosta de desafios.
O casal perfeito seria o que sabe aceitar a solidão inevitável do ser humano, sem se sentir isolado do parceiro - ou sem se isolar dele?!
O casal perfeito seria o que entende, aceita, mas não se conforma, com o desgaste de qualquer convívio e qualquer união?!
Talvez se possa começar por aí: não correr para o casamento, o namoro, o amante (não importa) imaginando que agora serão solucionados ou suavizados todos os problemas - a chatice da casa dos pais, as amigas ou amigos casando e tendo filhos, a mesmice do emprego, chegar sozinho às festas e sexo difícil e sem afeto.
Não cair nos braços do outro como quem cai na armadilha do "enfim nunca mais só!", porque aí é que a coisa começa a ferver.
Conviver é enfrentar o pior dos inimigos, o insidioso, o silencioso, o sempre à espreita, o incansável: o tédio, o desencanto, esse inimigo de dois rostos.
Passada a primeira fase de paixão (desculpem, mas ela passa, o que não significa tédio nem fim de tesão), a gente começa a amar de outro jeito.
Ou a amar melhor; ou, aí é que a gente começa a amar. A querer bem; a apreciar; a respeitar; a valorizar; a mimar; a sentir falta; a conceder espaço; a querer que o outro cresça e não fique grudado na gente.
O cotidiano baixa sobre qualquer relação e qualquer vida, com a poeira do desencanto e do cansaço, do tédio.
A conta a pagar, a empregada que não veio, alguém na família doente ou complicada(o), a mãe ou o pai deprimido ou simplesmente o emprego sem graça e o patrão de mau humor.
E a gente explode e quer matar e morrer, quando cai aquela última gota - pode ser uma trivialíssima gota - e nos damos conta: nada mais é como era no começo. Nada foi como eu esperava.
Não sei se quero continuar assim, mas também não sei o que fazer. Como a gente não desiste fácil, porque afinal somos guerreiros ou nem estaríamos mais aqui, e também porque há os compromissos, a casa, a grana e até ainda o afeto, é preciso inventar um jeito de recomeçar, reconstruir.
Na verdade devia-se reconstruir todos os dias. Usar da criatividade numa relação. O problema é que, quando se fala em criatividade numa relação, a maioria pensa logo em inovações no sexo, mas transar é o resultado, não o meio.
Um amigo disse no aniversário de sua mulher uma das coisas mais belas que ouvi: "Todos os dias de nosso casamento (de uns 40 anos), eu te escolhi de novo como minha mulher".
Mas primeiro teríamos de nos escolher a nós mesmos diariamente. Ao menos de vez em quando sentar na cama ao acordar, pensar: como anda a minha vida?
Quero continuar vivendo assim? Se não quero, o que posso fazer para melhorar? Quase sempre há coisas a melhorar, e quase sempre podem ser melhoradas. Ainda que seja algo bem simples; ainda que seja mais complicado, como realizar o velho sonho de estudar, de abrir uma loja, de fazer uma viagem, de mudar de profissão.
Nós nos permitimos muito pouco em matéria de felicidade, alegria, realização e sobretudo abertura com o outro.
Velhos casais solitários ou jovens casais solitários dentro de casarão terrivelmente tristes e terrivelmente comuns.
É difícil? É difícil. É duro? É duro. Cada dia, levantar e escovar os dentes já é um ato heroico, dizia Hélio Pellegrino. Viver é um heroísmo, viver bem um amor mais ainda.
O casal perfeito talvez seja aquele que não desiste de correr atrás do sonho e da certeza de que, apesar dos pesares, a gente, a cada dia, se escolheria novamente!!!

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A ARTE DE SER ALGUÉM



A solidão e a invisibilidade do ser caminham de mãos dadas. Sozinho é aquele que não aparece para os outros, que tem medo até de se olhar no espelho porque a própria imagem aparece como uma companhia inexistente.
Há pessoas que passam a existência em busca de aprovação, sem realmente estar nessa busca e sentem-se sempre como uma pálida cor no quadro da vida.
Elas querem ser vistas, amadas, apreciadas, mas não saem do lugar, ficam sempre à espera que um reconhecimento haja.
Mas o que torna uma pessoa visível ou invisível aos olhos dos outros? Ninguém precisa ser importante no sentido de possuir coisas ou ser um ser extraordinário para que possa ser visto ou amado. Não são as outras pessoas que nos tornam visíveis ou invisíveis, solitários ou cercados de pessoas, somos nós.
Quando damos de nós, vamos deixando pedacinhos do nosso eu nos outros, de maneira que vamo-nos tornando presentes e inesquecíveis. As pessoas sempre querem se aproximar daquilo que lhes fazem bem, que é positivo, estão sempre voltadas para aquilo que vai valorizá-las de alguma forma.
Quem reclama que não se sente amado, não se sente procurado, que acha que passa pela vida como uma forma vazia e sem importância, deveria ver o mundo pelo outro lado da janela, de fora para dentro.
Faça o contrário, aja, ame, torne-se alguém pelo menos para alguém, seja aquilo que você gostaria que os outros vissem em você. Ninguém deve ter o poder de nos transformar, nós devemos ter o poder e a possibilidade de trabalhar do nosso interior para o exterior. Somos nós que nos construímos ou nos destruímos, que aparecemos ou desaparecemos.
As pessoas vêm em nós o que parecemos a elas. Elas não nos fazem, a menos que permitamos. Nós nos fazemos!
Se sentimos essa necessidade de sermos queridos e apreciados, queiramos e apreciemos. É impossível esconder uma luz numa noite escura e, creiam, o mundo atual é para muitos uma noite escura e sem estrelas. Sejamos então uma luz. E as pessoas com necessidade disso virão a nós.
Estaremos assim cumprindo nossa missão, daremos o que precisam e recuperaremos em nós o que precisamos para nos sentir inteiros e saciados.
Embora as pessoas façam parte da nossa história, elas não a escrevem. Nós o fazemos, com todos os instrumentos que temos ou aqueles que nos inventamos.
As marcas dos nossos passos só podem ser deixadas por nós mesmos.