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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

ONDE MORA UM, MORA OUTRO




Senhor, faça-me lembrar:
Diante da injustiça, que a revolta que sinto é uma arma que uso contra mim mesmo;
Diante do olhar que me desaprova, que o sentimento de culpa faz com que eu cometa mais erros;
Que dando importância a palavras ferinas eu trago setas afiadas para o meu coração;
Que nas dificuldades materiais a preocupação me afasta da prosperidade;
Que se moléstias me acometerem, a lamentação e o desânimo retardam meu retorno à saúde;
Que nos atritos humanos a raiva e a irritação fecham-se as portas da paz;
Que a exigência excessiva afasta-me da serenidade de perceber que todos são como sabem ser;
Que a queixa pelas perdas sofridas bloqueia meu poder de preencher os vazios deixados;
Que a depressão e a tristeza fecham meus olhos para a beleza da vida a cada nascer de novo dia;
Que o medo do futuro paralisa minhas forças para agir no momento presente.
Que valorizar decepções do passado faz com que eu despreze as lições que com elas aprendi;
Senhor:
Lembre-me sempre que tenho a sabedoria à minha disposição... e além... e acima de tudo... que onde mora o problema também mora a solução.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

OITO VERSOS QUE TRANSFORMAM A MENTE


Vou agora ler e explicar brevemente um dos mais importantes textos sobre a transformação da mente, Lijona Tsigyema (Oito versos que transformam a mente).
Este texto foi composto por Geshe Langri Tangba, um bodisalva bastante incomum. Eu próprio o leio todos os dias, tendo recebido a transmissão do comentário de Kyabje Trijana Rinpoche.
1.   Com a determinação de alcançar o bem supremo em benefício de todos os seres sencientes, mais preciosos do que uma joia mágica que realiza desejos,vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais algo grau.
Aqui, estamos pedindo: “Possa eu ser capaz de enxergar os seres como um joia preciosa, já que são o objeto por conta do qual poderei alcançar a onisciência; portanto, possa eu ser capaz de prezá-los e estimá-los.”
2.          Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender a pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas, e, com todo respeito, considerá-las supremas, do fundo do meu coração.
“Com todo respeito considerá-las supremas” significando não as ver como um objeto de pena, o qual olhamos de cima, mas, sim, as ver como um objeto elevado.
Tomemos, por exemplo, os insetos: eles são inferiores a nós porque desconhecem as coisas certas a serem adotadas ou descartadas, ao passo que nós conhecemos essas coisas, já que percebemos a natureza destrutiva das emoções negativas. Embora seja essa a situação, podemos também enxergar os fatos de um outro ponto de vista. Apesar de termos consciência da natureza destrutiva das emoções negativas, deixamo-nos ficar sob a influência delas e, nesse sentido, somos inferiores aos insetos.
3.         Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente e, sempre que surgir uma emoção negativa, pondo em risco a mim mesmo e aos outros, vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.
Quando nos propomos uma prática desse tipo, a única coisa que constitui obstáculo são as negatividades presentes no nosso fluxo mental; já espíritos e outros que tais não representam obstáculo algum. Assim, não devemos ter uma atitude de preguiça e passividade diante do inimigo interno; antes, devemos ser alertas e ativos, contraponde-nos às negatividades de imediato.
4.            Vou prezar os seres que têm natureza perversa e aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos, como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso, muito difícil de achar.
Essas linhas enfatizam a transformação dos nossos pensamentos em relação aos seres sencientes que carregam fortes negatividades. De modo geral, é mais difícil termos compaixão por pessoas afligidas pelos sofrimentos e coisas assim, quando sua natureza e personalidades ao muito perversas. Na verdade, essas pessoas deveriam ser vistas como objeto supremo da nossa compaixão. Nossa atitude, quando nos deparamos com gente assim, deveria ser a de quem encontrou um tesouro.
5.           Quando os outros, por inveja, maltratem a minha pessoa: ou a insultarem e caluniarem, vou aprender a aceitar a derrota, e a eles oferecer a vitória.
Falando de modo geral, sempre que os outros, injustificadamente, fazem algo de errado em relação à nossa pessoa, é lícito retaliar, dentro de uma ótima mundana. Porém, o praticante das técnicas da transformação da mente devem sempre oferecer a vitória aos outros.
6.     Quando alguém a quem ajudei com grande esperança magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo, vou aprender a ver essa outra pessoa como um excelente guia espiritual.
Normalmente, esperamos que os seres sencientes a quem muito auxiliamos, retribuam a nossa bondade; é essa a nossa expectativa. Ao contrário, porém, deveríamos pensar: “Se essa pessoa me fere em vez de retribuir a minha bondade, possa eu não retaliar mas sim, refletir sobre a bondade dela e ser capaz de vê-la como um guia especial.
7.            Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção, toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos, e a tomar sobre mim, em sigilo, todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.
O verso diz: “Em suma, possa eu ser capaz de oferecer todas as qualidades boas que possuo a todos os seres sencientes” – essa é a prática da generosidade – e ainda: “Possa eu ser capaz, em sigilo, de tomar sobre mim todos os males e sofrimentos deles, nesta vida e em vidas futuras.” Essas palavras estão ligadas ao processo da inspiração e expiração.
Até aqui, os versos trataram da prática no nível da bodhicitta convencional. As técnicas para cultivo da bodhicitta convencioanl não devem ser influenciadas por atitudes como: “Se eu fizer a prática do dar e receber, terei melhor saúde, e coisas assim”, pois elas denotam a influência de considerações mundanas. Nossa atitude não deve ser: “Se eu fizer uma prática assim, as pessoas vão me respeitar e me considerar um bom praticante. Em suma, nossa prática destas técnicas não deve ser influenciada por nenhuma motivação mundana.”
8.       Vou aprender a manter estas práticas isentas das máculas das oito preocupações mundanas, e, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios, serei libertado da escravidão do apego.
Essas linhas falam da prática da bodhicitta última. Quando falamos dos antídotos contra as oito atitudes mundanas, existem muitos níveis. O verdadeiro antídoto capaz de suplantar a influência das atitudes mundanas é a compreensão de que os fenômenos são desprovidos de natureza intrínseca. Os fenômenos, todos eles, não possuem existência própria – eles são como ilusões. Embora apareçam aos nossos olhos como dotados de existência verdadeira, não possuem nenhuma realidade. “Ao compreender sua natureza relativa, possa eu ficar livre das cadeias do apego.”
Deveríamos ler Lojona Tsigyema todos os dias e, assim incrementarmos nossa prática do ideal do bodisatva.
Extraído de The Union of Bliss and Emptiness.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O OUTONO DA VIDA



As imagens da estação climática se destacam pelo tom pastel das folhas das árvores. De igual forma, no outono das almas, os sentimentos adquirem tonalidades peculiares. Maneira de expressão que caracterizam um tempo exclusivo e próprio de viver.
O amor no outono surge de forma imprevisível, utilizando-se de mecanismos diversos. Pode chegar através de um olhar ou, até, de um email.
Ele não se constrange nem restringe aos limites do antigo e do atual. As serenatas românticas mudaram de figura. Da janela do quarto passaram à janela do computador. A carta de amor manuscrita e demorada entregue pelo carteiro, cedeu espaço às enviadas via realidade virtual com entrega instantânea.
Apesar dessas inovações o amor não muda. É o mesmo de sempre, tenhamos 15, 27, 48 ou 70 anos. Amor é verdade que recusa imitações. Mesmo com a epidemia de falsificados que ronda o cotidiano, o amor no outono é autêntico e também acontece.
Quando esse amor acontece, não se faz anunciar: irrompe porta adentro e ri dos obstáculos. Ele os supera a todos, numa convicção d que o lugar conquistado lhe pertence. Serenizado pela sabedoria, sublimado pela percepção, sedimentado pela certeza.
O amor no outono acontece onde lhe apraz porque é pleno de si mesmo e enfeita o jardim dos corações, que cedem ao seu magnetismo, não importa qual seja a estação do ano ou das vidas.
Mas o amor no outono também se reveste de sinais: sorrisos repentinos, olhar de devaneio, suspiros de veludo, taquicardia, calafrios no estômago, sonhos acordados e uma sensação de estar em outra galáxia.
O sentimento nessa estação da vida possui os mesmos idênticos sintomas de qualquer outra época porque ele não tem idade.
Quando o amor acontece, desperta o melhor de cada ser, sublima o que estava encerrado a sete chaves, abre janelas, areja todos os cantos da alma, sacode poeiras e dá sentido a todas as coisas. Ele é soberano e sábio. Escolhe parceiros e lhe oferece a chance da felicidade.
O amor no outono é coerente e não deixa dúvidas. É categórico e firme, num silencioso caminhar, que antecede a ventura. Sabe o tempo certo de chegar. Sabe o tempo certo de ficar. Sabe, simplesmente, o outro.
O amor outonal é conquista, é direito adquirido, é superação, é serenidade. Realização de todas as verdades, que ficaram sedimentadas pelo tempo, que não deixaram de acreditar no bom e no belo de todos os momentos da existência.
Sem sobressaltos, mas com euforia se abraça o sentimento bom, suave, calmo que invade o outono da alma.
Privilégio de alguns.

domingo, 17 de novembro de 2013

INVISÍVEIS



Somos invisíveis? É bem possível que uma grande maioria de nós já tenha se questionado dessa forma, em algum momento.
Acontece quando se entra em uma loja e o atendente nos ignora.Ou quando estamos frente ao balcão de uma companhia aérea, tentando saber se o voo está no horário. Ou, em algumas repartições públicas, à procura de informações.
A pessoa que ali está, simplesmente ignora nossa indagação, nossa presença.É como se fôssemos invisíveis.
Para nós que lidamos com a imortalidade, que estudamos a respeito da vida que nunca cessa, o primeiro pensamento que nos acode, ao nos sentirmos assim ignorados é: Será que eu morri e não me dei conta? Terei acaso atravessado a fronteira da vida sem me aperceber? Será por causa disso que as pessoas não me veem, não me respondem?
No entanto, além dessas situações, de um modo geral, quase todos nós nos movemos no mundo sem darmos atenção aos demais.
É assim que caminhamos pela rua, olhando nomes das ruas, números, veículos, sem olhar ao nosso redor.
Por isso, é comum esbarrarmos nos outros, e não nos darmos conta de suas presenças. Esbarramos e continuamos em frente, ao encalço do nosso objetivo, sem nos determos sequer para pedir desculpas. Ou para auxiliar a pessoa a juntar o que a fizemos derrubar com nosso esbarrão. Isso, quando não é a própria pessoa que perde o equilíbrio e vai ao chão.
Quando se abrem as portas dos coletivos urbanos, saímos como quem precisa apagar incêndio logo adiante. Alguns vão abrindo caminho, à força, batendo com a mochila que trazem às costas nos que aguardam nas filas e continuam em frente. Pisam nos pés alheios, mas prosseguem andando. Na ânsia de alcançar o seu destino, rapidamente, carregam consigo o que estiver no caminho: embrulhos, livros...  ou pessoas.
Mas nunca se voltam para pedir desculpas. Porque nada veem, nada sentem, nada percebem. Somente eles existem no caminho...
Em filas de cinema, supermercados, bancos, repartições, a questão não é muito diferente. Pessoas com pressa, com compromissos urgentes, tentam passar à frente de outras que aguardam há muito tempo. Para elas, não existe ninguém mais do que elas mesmas... e o seu problema, a sua dificuldade.
Se estamos no rol dessas pessoas afoitas, insensíveis, que somente veem a si mesmas, estanquemos o passo. Olhemos ao redor, observemos, respeitemos os que compartilham o mesmo ônibus, a mesma lanchonete, a mesma repartição pública.
O fato de termos que resolver muitas questões não está dissociado da possibilidade de sermos gentis, delicados, atenciosos. Não nos impede de olharmos ao redor, de ceder o lugar a um idoso, uma grávida, alguém com dificuldade física.
Pensemos que tanto quanto nós não desejamos ser tratados como invisíveis, não devemos assim proceder com relação aos demais.
Somos todos humanos, necessitados uns dos outros. Ajamos então, como quem já se alçou à Humanidade e deseja prosseguir caminho, rumo à angelitude, nosso passo seguinte.