Páginas

segunda-feira, 25 de março de 2013

A COMPLICADA ARTE DE VER


Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado.
Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem.
“Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.
Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”.
Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre.
Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que veem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.
Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.
Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…
Texto originalmente publicado no caderno “Sinapse”, jornal “Folha de S. Paulo”, em 26/10/2004.

domingo, 24 de março de 2013

VOCÊ SÓ QUER SABER DO QUE PODE DAR CERTO?




Então leia o post da advogada mineira Raquel Carvalho.
Um tempo atrás, conversávamos sobre as benesses de estar com amigos leves, divertidos, que nos sabem e têm autorização para dizer verdades lúdicas que jamais admitiríamos vindas de outras pessoas. No meio do papo, regado a gargalhadas, um colega sentenciou:
- Não quero gente com problema por perto. Não dá! Não tenho tempo, estrutura, disponibilidade… Preciso de gente positiva, que enfrenta a vida, que sabe brincar com as próprias desgraças. Problemas? Reclamações? Tou-fo-ra!
As frases estão ecoando em meus ouvidos até agora. É certo que viver ao lado de reclamões, do tipo “sempre têm uma desgraça monumental a cada dia”, é muito difícil. Mas será que não estamos confundindo essa dificuldade com a total ausência de disponibilidade para “estar ao lado de”?
Tenho cá para mim que, para partilhar a vida com uma pessoa – seja o amor da sua vida, seja alguém da família, amigo, empregado ou colega de trabalho –, é preciso ter consciência de que o “dia da tranqueira” chegará. Pode ser a perda do emprego, de alguém querido, da saúde, de dinheiro, do equilíbrio, da paz familiar… Não importa o quê. Todos enfrentam períodos terríveis a que precisam sobreviver.
Se adotarmos como regra geral a teoria “problemas? Tou fora!” como é que vai ser? Com quem conviveremos? Cada um sairá por aí fazendo uma seleção das pessoas que, no momento, estão sem problemas e o convívio se restringirá a elas? O afeto sobrevive a esse tipo de seleção que, auto salvadora, soa bem egoísta? Não é crueldade simplesmente ignorar alguém no momento em que mais necessita, ainda que seja para se proteger?
É verdade que conviver com uma pessoa que tem desafios seguidos e perdas múltiplas não é fácil. Muitas vezes somos tragados por buracos negros que não são nossos. Ser companheiro e saber se preservar, numa atitude saudável, é arte para poucos. Logo, é impossível negar a dificuldade de estar ao lado de alguém que passa por fase(s) ruim(ns). Mas não é também para isso que existem a família, os amigos, esses sistemas que integramos e que nos servem de apoio? Essa partilha não é inerente ao convívio? É possível amar, gostar, ser amigo e não se envolver com o que de ruim acontece com a pessoa que está ao lado?
Escrevendo isso, lembrei (fui atrás e encontrei) o e-mail de uma querida amiga, a Andrea, sobre o assunto. Ela ponderava que, num mundo de tantas demandas, estamos todos sobrecarregados e nos falta paciência para lidar com as dificuldades: “Em tempos de amizades virtuais, as pessoas se esquecem de que nós, pobres seres humanos, não somos apenas um perfil numa página da internet. (…) Talvez o que esteja faltando nas relações humanas seja mesmo o contato, a convivência, a paciência, o saber ouvir os queixumes do outro.”
Ao reler o e-mail, fiquei me perguntando: será que desaprendemos a amar? Há quem diga que nunca o soubemos. Argumenta-se que o apoio obtido em determinadas esferas, historicamente, pouco teve de sentimento de amor como fundamento, sendo muito mais embasado em questões econômicas, políticas e financeiras. Esse seria, por exemplo, o caso da família que jamais teria sido o núcleo de afeto idealizado por tantos, mas só uma instituição que serviu (e serve) a outros propósitos outros como preservação do patrimônio, segurança dos seus integrantes e das gerações futuras.
Ok. É inviável descartar alguns desses elementos historicamente comprovados. No entanto, cabe admitir que vínculos de amizade, afeto no núcleo familiar, amor nas relações a dois e apoio sincero no trabalho não são coisas impossíveis, nem irreais e muito menos fantasiosas. Acho que são possibilidades reais para aqueles que sabem trocar. Falo da turma que aprendeu a dar e a receber, que sabe pedir e se doar. Refiro-me ao pessoal que se dispôs a confiar nas pessoas e, mesmo com alguns tombos, decidiu continuar confiando naqueles que se mostrem merecedores disso. É uma galera que não dá as costas fingindo que “não é comigo”, quando um desafio surge e implica sacrifícios gerais; a que está ao seu lado soltando foguetes nos momentos do seu sucesso e é a mesma turma que humildemente pede sua ajuda e que generosamente oferece auxílio quando você precisa. Partilha. Par-ti-lha.
Fico pensando se cortar da vida quem tem problemas, pelo simples fato de os ter, mesmo com o intuito de se manter a salvo, não seria uma demonstração enorme de fraqueza e de incapacidade de amar? Eu chamo de incapacidade de amar a falta de forças necessárias para suportar. E suportar aqui significa “dar suporte”, uma parte indispensável da troca amorosa. Pessoas fracas, frágeis demais ou que já perderam tanto, ao ponto de não terem condições de estar ao lado em momentos ruins, são certeza de solidão nas horas mais incertas da vida.
A falta da habilidade amorosa pode ser resultado de uma vida sem bons modelos. Quem não presencia o afeto, não aprende; e, se não aprendeu, em princípio não saberá agir, não terá recursos de que possa se valer no momento em que for preciso apoiar ou trocar. Outros até aprenderam, em casa ou dando a cara a tapa vida afora; o problema é que, no exercício cotidiano, estreparam-se; então, desistiram e resolveram que precisavam se salvar. Para eles, isso significa só querer o “lado bom, fácil e leve” das relações, motivo por que correm de gente que passa apertos significativos e angustiantes.
Acho que é irrelevante a diferença que existe na “causa”: 1) não aprendeu ou 2) aprendeu e depois desistiu. O que me parece importante e preocupa é o grande número de pessoas que hoje vive os seus dias assim: correndo de qualquer criatura que tenha levado um tranco daqueles. Quando a maior parte das pessoas só admite viver no paraíso de uma ilha no Havaí, como passar os dias no centro de uma grande cidade poluída, exatamente onde a maior parte de nós habita? Não raras vezes, a solução para esse abismo é a superficialidade, o fingimento, a distância e o irreal como experiência cotidiana. Desconfio que um pouco da euforia exarcerbada das redes sociais advém exatamente da sensação generalizada de que “se tiver problemas, não terei companhia” ou “se estiver triste, ficarei mais sozinho e triste ainda”! Dedicam-se os dias, então, a provar o quão belo, leve, pessoa de sucesso e extraordinariamente feliz se é, o tempo inteiro.
Ói só, cá de mim, preciso confessar umas coisas. Primeiro, declaro que a minha gentil pessoa acorda horrorosa em alguns dias. Tá bom, tá bom… Em muitos deles. Querem pior? Às vezes fico tristíssima, o trabalho atrasado “sai pelo ladrão” e ainda me sinto a última das criaturas, desprezada pelos amigos, pela chefia e até por meros conhecidos! Pois é exatamente em dias assim que, como o restante da humanidade, preciso de uma palavra de apoio. Apoio não significar tomar para si os problemas que são meus, nem ficar desesperado com a vida que é minha. Apoio pode significar mandar um e-mail de três linhas, fazer um café em dois minutos, dar um abraço de cinco segundos ou se dispor a um alô de meia hora. Somos todos humanos e precisamos ser vistos; mais do que isso, quando estamos no chão, podemos precisar até de uma mãozinha que nos ajude a levantar. Tropeçar e cair já é ruim o suficiente; se ainda for necessário fingir – para quem vive ao lado! – que estamos nos píncaros da alegria, enquanto chafurdamos na lama da tristeza… ah, tenha dó! É ser burro demais, além de um bocado perverso.
Quero deixar bem claro que abomino combinações doentias como as presentes nas relações em que, de um lado, há o “generoso ao extremo” e, do outro, “o egoísta sugador”. Também penso que, na maior parte das situações ruins, achar alguma graça pode ajudar; rir de si mesmo é um santo remédio e ser leve é o melhor deles. Logo, não se trata de uma apologia à vitimização ou de sugerir que todos permaneçam em doação constante como santidades generosas canonizadas. Trata-se, apenas, de sermos humanos. Como humanos, seres que não podemos ser excluídos como uma blusa velha cujos defeitos autorizam o descarte.
Amor, gente. Estou falando da necessidade de sermos amados e da tentativa de sermos fortes o suficiente para amar. Sem desistência antes de tentar.
Alguém aí encara?

sábado, 23 de março de 2013

O MILAGRE DO AMOR



Percebendo as árduas lutas por que passam seus irmãos na face da Terra, um Espírito Benfeitor ditou uma mensagem que intitulou O milagre do amor, e diz mais ou menos assim:
Quando a dúvida lhe chegue, maliciosa, indague ao amor qual a conduta a seguir.
Quando a saudade avizinhar-se, tentando macerar-lhe o coração, refugie-se no amor e deixe que as recordações felizes iluminem a noite em que você se encontra.
Quando a aflição aturdir-lhe o íntimo, chame o amor, para que a calma e a confiança predominem nas suas decisões.
Quando a suspeita buscar aninhar-se em seu coração, dirija o pensamento ao amor e a paz dominará as paisagens dos seus sentimentos.
Quando a cólera acercar-se da sua emotividade, recorde-se do amor e suave balada de entendimento se lhe fará ouvida na acústica da alma.
Quando o abandono ameaçar estraçalhar-lhe os sonhos, ferindo-lhe a alma, busque o amor, que lhe dará fortaleza para prosseguir, embora a sós.
Em qualquer situação, dirija-se ao amor. Só o amor possui o correto entendimento de todas as coisas e fala, em silêncio, a linguagem de todos os idiomas.
O brilho de um olhar... Um sorriso de esperança... Um gesto quase imperceptível... Um movimento rítmico, um aceno... A presença do ausente... Um toque... A música de uma palavra só o amor logra transformar em bênção.
Feito de pequenos nadas, o amor é a força eterna que embala o príncipe no leito dourado e o órfão na palha úmida.
O amor é o único mecanismo que conduz o fraco às tarefas gigantescas... Que impulsiona o progresso real; que dá dignidade à vida; que impele ao trabalho de reverdecer o pantanal e o deserto... Que concede alento, quando a morte parece dominar soberana...
O amor é vida, sem o qual esta perderia o sentido e a significação. Quando se ama, a noite coroa-se de astros e o dia se veste de sorrisos.
O amor colore a palidez do sofrimento e o erradica. Sem este milagre, que é o amor, não valeria a pena viver. Em tudo está a presença do amor que provém de Deus e é Deus.
Descubra o amor, e ame. Ame e felicite-se, colocando na estrada do amor sinais de luz, a fim de que nunca mais haja sombra por onde o amor tenha transitado a derramar claridade.