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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

SERES DE LUZ


A luz constitui um dos maiores mistérios do Universo.
Somente entendendo-a ao mesmo tempo como partícula material e como onda energética, podemos ter dela uma compreensão mais ou menos adequada.
Hoje sabemos que todos os seres vivos emitem luz Biofótons, a partir das células do DNA, por isso todos irradiam certa aura.
Não é sem razão que a luz e o sol se tornaram símbolos poderosos de tudo que é  positivo e vital.
Especialmente o sol irradiante é visto como o grande arquétipo do herói e do lutador que vence as trevas e os monstros que nelas eventualmente se escondem.
Sua aparição a cada manhã não é uma repetição, mas toda vez uma novidade, pois é sempre diferente.
É um teatro cósmico que começa  como se Deus dissesse ao sol a cada manhã: “Vamos, tente mais uma vez! Renove teu nascimento! Irradie tua luz em todas as direções e sobre todos”.
Na maioria dos povos havia o temor de que  o sol pudesse ser tragado pelas trevas e não voltasse mais a nascer e a iluminar a Terra e a cada um de nós.
Criaram-se rituais e festas que celebraram a vitória do sol sobre as trevas.
Fazia-se e faz-se ainda hoje a impressionante experiência de que o sol, com seus raios de luz, nasce como uma criança.
Na medida em que sobe no firmamento, vai crescendo como um  adolescente  até chegar à idade adulta ao meio dia.
Pela tarde vai definhando até ficar velho e morrer atrás da linha do horizonte.
Mas, passada a noite ele volta a nascer, limpo, brilhante,  sorridente como uma criança.
Como não celebrá-lo festivamente?
Como não entendê-lo como sinal da realidade originadora de todas as coisas?
Nós todos somos seres de luz. Carregamos luz dentro de nós, no corpo, no coração, na mente.
Especialmente a luz da mente nos permite compreender os processos da natureza e penetrar no íntimo das pessoas até no mistério luminoso de Deus.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A TRANSFIGURAÇÃO NA MORTE


O dia dos mortos, dois de novembro, é sempre  ocasião para pensarmos na morte. Trata-se de um tema existencial. Não se pode falar da morte de uma maneira exterior a nós mesmos, porque todos nós somos acompanhados por esta realidade que, segundo Freud, é a  mais difícil de ser digerida pelo aparelho psíquico humano. Especialmente nossa cultura procura afastá-la, o mais possível, do horizonte pois ela nega todo seu projeto assentado sobre a vida material e seu desfrute etsi mors non daretur, como se ela não existisse.
No entanto, o sentido que damos à morte é o sentido que nós damos à vida. Se decidimos que a vida se resume entre o nascimento e a morte e esta detém a última palavra, então a morte ganha um sentido, diria, trágico, porque com ela tudo termina no pó cósmico. Mas se interpretarmos a morte como uma invenção da vida, como parte da vida, então não a morte mas a vida constitui a grande interrogação.
Em termos evolutivos, sabemos que, atingido certo grau elevado de complexidade, ela irrompe como um imperativo cósmico, no dizer do prêmio Nobel de biologia Christian de Duve que escreveu uma das mais brilhantes biografias da vida sob o título Poeira Vital  (1984). Mas ele mesmo assevera: podemos descrever as condições de seu surgimento, mas não podemos definir o que ela seja.
Na minha percepção, a vida não é nem temporal, nem material, nem espiritual. A vida é simplesmente eterna. Ela se aninha em nós e, passado certo lapso temporal, ela segue seu curso pela eternidade afora. Nós não acabamos na morte. Transformamo-nos pela morte, pois ela representa a porta de ingresso ao mundo que não conhece a morte, onde não há o tempo mas só a eternidade.
Consintam-me testemunhar duas experiências pessoais de morte, bem diversas da visão dramática que a nossa cultura nos legou. Venho da cultura espiritual franciscana. Nos meus quase 30 anos de frade, pude vivenciar a morte como São Francisco a vivenciou.
A primeira experiência era aquela que, como frades, fazíamos toda sexta feira, às 19:30 da noite: “o exercício da boa morte”. Deitava-se na cama com hábito e tudo.  Cada um se colocava diante de Deus e fazia um balanço de toda a sua vida, regredindo até onde a memória pudesse alcançar. Colocávamos tudo, à luz de Deus e aí, tranquilamente, refletíamos sobre o porquê da vida e o porquê dos zigue-sagues deste mundo. No final, alguém recitava em voz alta no corredor o famoso salmo 50 do Miserere no qual o rei Davi suplicava o perdão a Deus de seus pecados. E também se proclamavam as consoladoras palavras da epístola de São João: “Se o teu coração te acusa, saiba que Deus é maior do que o teu coração”.
Éramos, assim, educados para uma entrega total, um encontro face a face com a morte diante de Deus. Era um entregar-se confiante, como quem se sabe na palma da mão de Deus. Depois, íamos alegremente para a recreação, tomar algum refresco, jogar xadrez ou simplesmente conversar. Esse exercício tinha como efeito um sentimento de grande libertação. A morte era vista como a irmã que nos abria a porta para a Casa do Pai.
A outra experiência diz respeito ao dia da morte e do sepultamento de algum confrade. Quando morria alguém, fazia-se festa no convento, com recreação à noite com comes e bebes. O mesmo ocorria depois de seu sepultamento. Todos se reuniam e celebravam a passagem, a páscoa e o natal, o vere dies natalis (o verdadeiro dia do nascimento) do falecido. Pensava-se: ele na vida foi, aos poucos, nascendo e nascendo até acabar de nascer em Deus. Por isso havia festa no céu e na terra. Esse rito é sagrado  e celebrado em todos os conventos franciscanos.
O frade que deixou esse mundo, entrava na comunhão dos santos, está vivo, não é um ausente, apenas um invisível. Há celebração mais digna da morte do que esta inventada por São Francisco de Assis que chamava a todos os seres de irmãos e irmãs e também a morte de irmã?
A percepção da morte é outra. As pessoas são induzidas a conviver com a morte, não como uma bruxa que vem e arrebata a vida, mas como a irmã que vem abrir a porta para um nível mais alto de vida em Deus.
Cada cultura tem a sua interpretação da morte. Estive há tempos entre os Mapuches, no sul da Patagônia argentina, falando com os lomkos, os sábios da tribo. Eles têm bem outra compreensão da morte. A morte significa passar para o outro lado, para o lado onde estão os anciãos. Não é abandonar a vida, é deixar seu lado visível para entrar no lado invisível e conviver com os anciãos. De lá acompanham as famílias, os entes queridos e outros próximos, iluminando-os. A morte não tem nenhuma dramaticidade. Ela pertence à vida, é o seu outro lado.
Poderíamos passar por várias outras culturas para conhecer-lhes o sentido da vida e da morte. Mas fiquemos no nosso tempo moderno. Há um filósofo que trabalhou positivamente o tema da  morte: Martin Heidegger. Em sua analítica existencial afirma que a condição humana, em grau zero, é a de que somos um ser no mundo, este não como lugar geográfico, mas como o conjunto das relações que nos permitem produzir e reproduzir a vida.
A condition humaine é estar no mundo com os outros, cheios de cuidados e abertos para a morte. A morte é vista não como uma tragédia e sim como a derradeira expressão da liberdade humana, enquanto o último ato de entrega. Essa entrega sem resto abre a possibilidade para um mergulho total na realidade e no Ser. É uma espécie de volta ao seio de onde viemos como entes mas que buscam o Ser. E finalmente, ao morrer, somos acolhidos pelo Ser. E aí já não falamos porque não precisamos mais de palavras. É o puro viver pela alegria de viver e de ser no Ser.
Para o homem religioso, este Ser não é outro senão o Supremo Ser, o Deus vivo que nós dá a plenitude da vida.

sábado, 30 de março de 2013

OFICIALMENTE VELHO



Neste mês de dezembro completo 70 anos. Pelas condições brasileiras, me torno oficialmente velho. Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira. Esta possui uma dimensão biológica, pois irrefreavelmente o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas.
De fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas. Mas há um outro lado, mais instigante. A velhice é a última etapa do crescimento humano. Nós nascemos inteiros. Mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino. Estamos sempre em gênese. Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer. Então entramos no silêncio. E morremos.
A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer. Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: ”na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenesce o homem interior” (2Cor 4,16). A velhice é uma exigência do homem interior. Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical. Esta identidade devemos encará-la face a face.
Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe. Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis. Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano, submetido ao “silêncio obsequioso” e outros papéis mais. Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha.
Então deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos: Afinal, quem sou eu? Que sonhos me movem? Que anjos que habitam? Que demônios me atormentam? Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério? Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a estas indagações vem à lume o homem interior. A resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do inefável.
Este é o desafio para a etapa da velhice. Então nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina. Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida.
Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando os sonhos que nos sustentaram por toda uma vida, reconciliando-nos com os fracassos e buscando sabedoria. É ilusão pensar que esta vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice como a etapa final do crescimento e de nosso verdadeiro Natal.
Por fim, importa preparar o grande Encontro. A vida não é estruturada para terminar na morte, mas para se transfigurar através da morte. Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a Última Realidade, feita de amor e de misericórdia. Aí saberemos finalmente quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome.
Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: ”contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade”.
Por fim, alimento dois sonhos, sonhos de um jovem ancião: o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue; e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa: ”eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver”. Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus. Parafraseando Camões, completo: mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida.
Leonardo Boff, teólogo brasileiro) 14/12/1938, Concórdia (SC). Neto de italianos que migraram para o sul do Brasil no final do século 19, Leonardo Boff, garoto ainda, com  11 anos, partiu de sua cidade natal, Concórdia, com destino ao seminário de Luzerna, no Vale do Rio do Peixe (SC), certo de que o seu futuro era o da fé. Fez estudos avançados em universidades de prestígio, como Wurzburg, Lovaina e Oxford, doutorando-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique, Alemanha, em 1970. Ficou conhecido pelos seus trabalhos sobre a Teoria da Libertação
Seus textos serviram de base para novas gerações de teólogos latino-americanos. Mas ao combinar a Bíblia com a política, desagradou às autoridades eclesiásticas. Em 1984, como punição pelo livro Igreja, Carisma e Poder (1981), no qual chega a criticar a própria estrutura da Igreja, foi chamado a dar explicações ao Vaticano, sendo condenado a um "silêncio obsequioso" por um ano, sendo proibido de se manifestar publicamente.
Em 1992, ao ser condenado novamente, o teólogo, resolveu pedir dispensa do sacerdócio.
Atualmente, além de um grande teórico da fé, destaca-se como um idealista: cria e assessora Comunidades Eclesiais de Base, para as quais prega a luta por uma sociedade mais justa e humana, na qual os pobres não devem simplesmente aceitar a condição de miséria como algo natural, mas agir em favor da justiça social. Professor emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, publicou mais de 70 livros.
Enviado por Roy Lacerda do blog MomentoBrasil e foi aqui postado, por ser pertinente à proposta do Arca.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

CORAGEM EM SE RENOVAR PARA NÃO PERDER O HORIZONTE DO FUTURO



Há mais de 15 anos, publiquei um artigo com o título “Rejuvenescer como águias”. Relendo agora aquelas reflexões, me dei conta de como elas são atuais e adequadas aos tempos maus sob os quais vivemos e sofremos. Retomo-as e aprofundo-as para alimentar nossa esperança, enfraquecida pelas ameaças que pesam sobre a Terra e a humanidade. Se não nos agarrarmos a alguma esperança, perderemos o horizonte do futuro e correremos o risco de nos entregarmos ao desamparo imobilizador ou à resignação estéril. Lembrei-me de um mito da antiga cultura mediterrânea sobre o rejuvenescimento das águias. De tempos em tempos, reza o mito, a águia se renova totalmente. Ela voa cada vez mais alto até chegar perto do sol. Então, as penas se incendeiam, e ela toda começa a arder. Quando chega a esse ponto, ela se precipita do céu, se lança qual flecha nas águas frias do lago, e o fogo se apaga. A velha águia volta a ter penas novas, garras afiadas, olhos penetrantes e o vigor da juventude. Esse mito constitui o substrato cultural do salmo 103, que diz: “O Senhor faz com que minha juventude se renove como uma águia”.
Para entender esse relato, precisamos revisitar Gaston Bachelard e C. G. Jung, que entendiam muito de mitos e de seu sentido existencial. Segundo sua interpretação, fogo e água são opostos, mas, quando unidos, se fazem poderosos símbolos de transformação. O fogo simboliza o céu, a consciência e as dimensões masculinas. A água, ao contrário, a terra, o inconsciente e as dimensões femininas.

Passar pelo fogo e pela água significa, portanto, integrar em si os opostos e crescer na identidade pessoal. Ninguém, ao passar pelo fogo ou pela água, permanece intocado.

A água nos faz pensar também nas grandes enchentes. Com sua força, tudo carregam, especialmente o que não tem consistência e solidez. São os infortúnios da vida.

E o fogo nos faz imaginar as fornalhas que queimam e acrisolam tudo o que é ganga e não é essencial. São as notórias crises existenciais. Quem recebe o batismo de fogo e o de água rejuvenesce como a águia.

O VELHO E O NOVO

Isso significa entregar à morte todo o velho que existe em nós para que o novo possa irromper e fazer o seu curso. O velho em nós são os hábitos e as atitudes que não nos engrandecem. Em outras palavras, significa morrer e ressuscitar.

Rejuvenescer como águia significa, também, desprender-se de coisas que um dia foram boas e de ideias que foram luminosas, mas que, lentamente, se tornaram ultrapassadas e incapazes de inspirar um caminho para o futuro. A crise atual perdura e se aprofunda porque os que controlam o poder têm conceitos velhos, incapazes de oferecer respostas. Rejuvenescer como águia significa ter coragem para recomeçar e estar sempre aberto a escutar, a aprender e a revisar. Não é isso a que nos propomos a cada novo ano?

Que o ano de 2013, recém-inaugurado, seja oportunidade de perguntar o quanto de galinha existe em nós e que não quer outra coisa senão ciscar o chão, e o quanto de águia há, também, em nós disposta a rejuvenescer ao confrontar-se valentemente com os tropeços e as crises da vida e buscar um novo paradigma de convivência.

E não podemos esquecer aquela Energia poderosa e amorosa que sempre nos acompanha e que move o inteiro universo. Ela nos habita, nos anima e confere permanente sentido de lutar e de viver. Seu nome é Spiritus Creator, que nunca nos pode faltar, senão, perdemos a vitalidade e a esperança.




Fonte: Blog MomentoBrasil.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

ONDE ENCONTRAR DEUS?


No abismo misterioso e fecundo, um punhado de poeira cósmica. E em meio a esta silenciosa imensidão, um ponto azul.
Uma pequenina esfera suspensa na imensidão escura do Universo.
Sonhos, amores e esperanças.
De tão pequenas coisas depende, como se sabe, a felicidade das pessoas.
E dentre toda a imensidão do espaço, a fina camada que recobre este ponto azul perdido na imensidão fez-se lar e abrigo para a vida, como a conhecemos. O nosso lar comum. Abrigo para uma tão rica variedade de formas de vida. A infinita diversidade de plantas, flores e frutos, animais, pássaros e peixes que compõem os elos da cadeia da vida.
E com o surgimento do ser humano, a evolução deu um salto extraordinário.
A característica peculiar da consciência e do livre arbítrio.
A abertura para as dimensões do mistério que permeia a criação.
A grandeza do mar, e a formosura das estrelas.
A estrela cadente e o seu trajeto luminoso.
O espanto diante de um universo vivo a pulsar.
Num tempo remoto, ao dirigir o olhar para o céu, os nossos longínquos antepassados perguntavam-se: “Quem é que sustenta, e se esconde por trás daquelas estrelas?”
As primeiras reflexões diante da beleza da Natureza, conduzindo à grandeza divina, infinitamente maior do que aquela do cosmos.
Os primeiros altares erguidos, pedras dispostas umas por sobre as outras.
O calor da esperança.
Os homens a caminhar sobre a face da terra, feito elos a unir o céu e a terra.
Um arranjo de pedras brutas que viu passar décadas, séculos e milênios.
Quantas gerações invocaram o Mistério nestas vastas colinas.
A brisa que passa, e que testemunha as cidades que vão sendo erguidas.
Os tempos passam, mas o encanto e o espanto diante do Mistério continuam os mesmos.
E enquanto imersos na passagem do tempo, aqueles que nutrem a sede de transcendência se fazem uma pergunta que acompanha o homem desde o início dos tempos: “Como podemos nos aproximar de Deus?”
Variadas são as respostas para esta pergunta.
Há os que afirmam que nos aproximamos de Deus por meio da oração. Em estado de oração, nos desligamos do mundo e nos acercamos do nosso Criador.
Há quem afirme que para encontrar Deus é preciso frequentar igrejas, mesquitas, templos ou sinagogas. Espaços e lugares de visitação respeitosa e reflexão silenciosa. Sagrados recintos onde se faz mais presente a presença do Criador.
Há quem sustente que nos aproximamos de Deus por meio da meditação e da contemplação. Um lugar calmo e tranquilo, de preferência um retiro longe do meio urbano, e em contato com a Natureza.
Há quem diga que se faz necessário acender velas e incensos. Banhar-se nas infinitas possibilidades da Luz. Deixar arderem em chamas todas as nossas impurezas.
Há quem sustente que para nos aproximarmos de Deus se faz preciso viajar. Visitar Jerusalém, Belém, Meca, Medina, Tibete, Santiago de Compostela. Percorrer os caminhos outrora trilhados por Jesus, Mohammad, Moisés, Buda e Abraão.
E há quem afirme que nos aproximamos de Deus por meio do estudo das Escrituras. Ensinamentos perenes que atravessam séculos, milênios e eras.
Tais respostas para a pergunta ‘Onde encontrar Deus?’ são todas legítimas e verdadeiras. A oração, a meditação, a interiorização, uma vida simples e comedida são alternativas válidas.
No entanto, a pergunta fundamental que devemos fazer não é ‘Onde podemos encontrar Deus?’, mas ‘Onde Deus quer ser encontrado por nós?’
“Deus é Amor” nos ensinam as Escrituras.
No fundo, o Amor é uma única realidade, embora possua distintas feições.
E é na Compaixão que se revela a sua face mais bela.
No Amor, na Caridade e na Compaixão reside o encontro – a aproximação verdadeira.
O ‘Rei Antigo’ identifica-Se de tal modo com os necessitados – famintos, enfermos, sedentos, nus, estrangeiros, encarcerados –, a ponto de afirmar: “Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos pequeninos, a Mim mesmoo fizestes.” (Mt 25,40)
Amor a Deus e amor ao próximo fundem-se num todo, de modo que no mais pequenino repousa o sagrado encontro com o nosso Criador.
Deus marcou o encontro onde nos parece mais contraditório: no oprimido, no sedento, no faminto e no nu.
Naqueles que não contam para os critérios dominantes da sociedade.
Naqueles que o sistema considera nulos, pois aos olhos do mercado praticamente nada produzem, e quase nada consomem.
Ele os chama de “Meus irmãos e Minhas irmãs menores” e diz: “Quem os recebe a Mim recebe, quem os rejeita a Mim rejeita”.
Na cidade grande, a menina ainda pequenina sob o viaduto perambula.
O barulho dos carros. O silêncio do céu. E a fragilidade inerente de toda infância. A precoce seriedade em seu olhar. Preocupações que em sua terna idade não deveria ombrear. Pequenina ave no ninho do abandono. Conseguirá algum dia voar?
É nos olhos que a alma transparece, escreveu certa vez um poeta.
Que histórias terá para nos contar o seu olhar, a sua alma?
Como ela se chamará?
Qual a data do teu aniversário?
Qual a tua brincadeira favorita?
Amor a Deus e amor ao próximo fundem-se num todo, de modo que junto ao mais pequenino, aproximamo-nos do nosso Criador. O Sagrado Encontro.
Como banhar de significado e sentido os nossos breves dias?
Na hora derradeira, o nosso destino final dependerá do grau de nossa comunhão mais íntima com o Deus da ternura dos humildes, o Deus do direito, dos injustiçados. O Deus do órfão, e daqueles que padecem.
Onde se agride a vida, agride-se a Deus.
Onde se abandona a vida, abandona-se a Deus.
Buscar a Luz, nestes tempos em que a escuridão se faz tão presente.
Reservar um espaço em nosso dia-a-dia para nos conectarmos com o Transcendente.
Deixar que Deus acampe em nossa subjetividade.
Ter ouvidos para a Voz que se faz ouvir no meio do Silêncio.
Aprender a fechar os olhos para ver melhor.
Recordar que Deus se anuncia sempre, que há reverência pela vida, participação, dignidade, alegria, liberdade, criatividade.
Cultivar flores no canteiro da alma.
Regar os jardins do espírito com a água pura da Compaixão e da Caridade.
Procurar vivenciar a experiência do “amar ao próximo como a si mesmo” em toda a sua plenitude.
Os mistérios da caminhada terrena, e as latentes potencialidades espirituais.
Ter olhos para o Invisível.
Sentir a Presença que permeia todas as horas, e todos os lugares.
Procurar fazer o possível, recordando que a base da perfeição é a Caridade.
Guardar no coração as seguintes palavras do Amigo e Mestre incomparável, que conduzem à verdadeira felicidade: “Felizes são aqueles que levam consigo
uma parte das dores do mundo. Durante a longa caminhada, eles saberão mais coisas sobre a felicidade do que aqueles que a evitam.” (Jesus Cristo)
Na vida espiritual quanto mais se corre menos se cansa.
“Avança, pois contas com Nossa ajuda”, ensinam todas as sagradas tradições.
Existem mundos dentro do mundo.
Existem diferentes formas de amar.
“Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei.” (Jesus Cristo)

Baseado no texto “Onde encontrar Deus?”, do teólogo Leonardo Boff, publicado no livro “A Força da Ternura”.